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Turismo e movimentos culturais na periferia de São Paulo

Atualizado: 22 de ago. de 2023

Paulo Tácio Aires Ferreira | Agente Cultural



Abordar o turismo nas periferias de uma cidade como São Paulo, nos obriga a tratar de outra relação ainda pouco estudada: turismo e movimentos e sociais. Estudos de Milano (2018) e Cruz (2019) corroboram tal afirmação. Sobre as especificidades do assunto, pesquisadores têm mencionado diretamente a relação destes dois fenômenos sociais, caso do costarriquenho Nuñez (2016; 2017) que aborda ativismos frente aos projetos turísticos na América Central; e do espanhol Milano (2018) que trata da relação de turismofobia, overtourism e movimentos sociais, cujos grupos realizam diversos atos e performances políticas no continente europeu. A autora australiana Higgins-Desbiolles (2020, p. 11) chama a atenção para pensar o turismo na chave da justiça social, aludindo à importância de que comunidades se portem na dianteira das decisões sobre o turismo.


Entretanto, um dos campos de estudos que denotam maior alinhamento são os que dizem respeito ao turismo de base comunitária (TBC) no Brasil e América Latina, compondo produções que já superam décadas. O TBC é apontado por muitos autores, pesquisadores, lideranças comunitárias e ativistas, não como um segmento, mas sim como modelo de gestão, ou uma estratégia política, e até como movimento social e político (SAMPAIO, 2006; MENDONÇA, MORAES, CATARCIONE, 2016).


O envolvimento entre turismo e movimentos sociais também tem partido especificamente dos trabalhadores da área, cujas ações empreendem esforços contra as perdas de direitos trabalhistas advindas da ideologia e práticas neoliberais. Neste sentido, coletividades lançam mão de grandes “repertórios de ação política” (TILLY, 1998), como a formação de sindicatos, associações, realizações de atos e greves. Tal fato estimulou tanto associações de trabalhadores na área com mais intensidade nos últimos tempos, como a formação de grupos de estudos e pesquisa encabeçados por profissionais da área e intelectuais orgânicos com intuito de não apenas compreender a questão, mas denunciar as injustiças caso dos estudos de Cañada (2018) e De Paula (2021), apenas para citar alguns.


Movimentos sociais nas periferias de São Paulo


Os movimentos sociais que surgiram em São Paulo no final da ditadura militar marcaram forte presença em atuação política na cidade entre os anos de 1970 e 1980. Desde esse período aos dias de hoje, tal como a cidade se modifica, certamente, estes próprios movimentos foram se remodelando dialeticamente.


O trabalho de Sader (1988) corrobora para analisar os movimentos populares de tal período. Para este autor a multiplicidade de experiências nas condições proletárias na cidade de São Paulo oportunizou projetos bem diversos de participação. Para além do já conhecido sindicalismo, são novos personagens e manifestações importantes que marcaram a época, como o clube de mães, movimentos contra a carestia, além das lutas por moradia, educação, entre outros (SADER, 1988). Estes movimentos marcaram seu tempo e legaram experiências.


Deste modo, Sader (1988) descreve as práticas de lutas dos trabalhadores e o simbolismo presente nos lugares em que estão inseridos estes sujeitos, caso das periferias. Para este autor diversas referências culturais nestes contextos afetavam o entendimento dos trabalhadores. O elemento discursivo ganha destaque implicando em diversas formas de se atribuir significados às práticas do cotidiano (SADER, 1988).


Adiante, segundo D’Andrea (2013) a partir de meados dos anos de 1990 ocorre um processo de crescimento exponencial de coletivos nas periferias da cidade os quais passaram a promover atividades artísticas (D’ANDREA, 2013, p. 181). Ambientes como bares, bibliotecas e livrarias têm sido importantes espaços desde o final dos anos de 1990 para ações culturais e políticas, em especial, os saraus poéticos. Um exemplo para a promoção de saraus é seguramente o bar do Zé Batidão (Zona Sul), onde surgiu o movimento cultural Cooperifa. Para D’Andrea (2013) os saraus fazem parte de um grande processo social, ainda pouco estudado, que auxiliou “na ressemantização do termo periferia e de ressignificação do fazer político nas periferias” (D’ANDREA, 2013, p. 26).


A última década (2011-2020) foi marcada por muitas atuações, que inclusive, permearam as grandes mobilizações nas ruas. A combinação destes ciclos de protestos com ações estratégicas, territoriais e pontuais possuem uma intensa relação dialética. Para D’Andrea (2013) a noção de periferia, antes de domínio da academia, passa a ser pensada e definida por coletividades periféricas. Assim, sujeitas e sujeitos periféricos (D’ANDREA, 2021) possuem suas singularidades e subjetividades forjadas em seus territórios.


Turismo, cultura, trabalho e autonomia nas periferias


Diante das experiências e aprendizados das muitas lutas, mencionadas na seção anterior, coletivos e grupos sociais na cidade de São Paulo têm se dedicado a uma série de atividades que vão além da cultura como pauta. Atividades culturais têm sido uma de tantas formas para se pensar novas estratégias de desenvolvimento e difusão dos saberes produzidos em territórios onde se localizam grupos invisibilizados. Essencialmente aqueles localizados nas periferias da cidade.


O turismo tem sido um vetor dentro das práticas culturais de muitos coletivos culturais na cidade. E tem sido pensado, em muitas ocasiões, com postura contra-hegemônica. É importante destacar que pela perspectiva de narrativas, práticas e ações de coletividades o turismo é visto de maneira complexa, para além de definições normativas institucionais.


Na relação entre práticas culturais e turismo, coletivos culturais têm problematizado tal questão. É o caso de desmitificar noções correntes sobre periferia, caso da ideia de “bairros-dormitório”. A noção corrente de “bairro-dormitório” desconsidera a pujança cultural construída por meio da sociabilidade e vivência periférica, e consequentemente a produção cultural como potência de desenvolvimento humano, mas também como possibilidade de geração de renda. Do contrário, a geração de renda pode advir de atividades culturais aliadas ao turismo.


Para corroborar esta problematização, podemos citar exemplos, caso da Agência Queixadas, localizada no bairro de Perus, que vem reiterando em diversas falas sobre a importância de se ver atividades culturais como mais uma forma de sustentabilidade econômica em seus territórios. Atividades culturais como ofício possibilitam que muitos moradores não necessitem atravessar a cidade em longos deslocamentos pendulares para se chegar a um trabalho.



Figura 1 - Projeto Rua de Lazer e evento de graffiti. Ação organizada pela Agência Queixadas no bairro de Perus, São Paulo. Foto: Paulo Tácio.


Isso também é reiterado pelas falas do Grupo Ururay, coletivo com extensa produção cultural na Zona Leste de São Paulo. Para este coletivo o financiamento de atividades culturais por políticas públicas de fomento promove uma cadeia produtiva de ações que geram renda para muitos sujeitos das periferias. Neste sentido, a valorização das práticas culturais aliada às ações de turismo pode ser extremamente importante para não apenas o desenvolvimento econômico de territórios periféricos, mas desde que se paute pelo aspecto humanista.



Figura 2 - Cordão da Micaela, ação organizada pelo Grupo Ururay, no bairro da Penha, Zona Leste de São Paulo. Foto: Paulo Tácio.

Vale, por fim, ressaltar o que os ativistas periféricos do Fórum de Cultura da Zona Leste Almeida e Jesus (2021, p. 63) nos lembram sobre a necessidade de garantir condições materiais mínimas às pessoas envolvidas com atividades de cultura. Partes das populações nestas áreas ainda vivem em regiões onde a renda per capita é muito baixa. Urge a necessidade de se mudar estruturalmente tal realidade.



Referências

CAÑADA, Ernest. Reforma trabalhista e a terceirização na Espanha: a precarização do trabalho das camareiras. Revista do Centro de Pesquisa e Formação SESC, edição especial Ética no Turismo, jun. 2018, p. 55-70.

CRUZ, G. M. Perspectivas teóricas para elabordaje de losmovimientossociales y suincorporaciónenel campo de lainvestigaciónen turismo. Turismo y Sociedad, Vol. 25, Julio-Diciembre de 2019. Disponível em: 10.18601/01207555.n25.10. Acesso em 16 jan 2021.

D’ANDREA, T. P. A formação dos sujeitos periféricos: Cultura e política na periferia de São Paulo. Tese (Doutorado em Sociologia). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: 10.11606/T.8.2013.tde-18062013-095304. Acesso 19 jan 2021.

D’ANDREA, T. P (Org). Reflexões Periféricas: propostas em movimento para a reinvenção das quebradas. São Paulo, Dandara Editora, 2021.

DE PAULA, A. T. Contrato Intermitente no Turismo: Tendência em Tempos de Pandemia e Pós-Pandemia?. ROSA DOS VENTOS, v. 13, p. 1-15, 2021.

HIGGINS-DESBIOLLES, F. Socialisingtourism for social andecological justice after COVID-19. TourismGeographies, 22:3, 610-623, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14616688.2020.1757748. Acesso em 03 mar 2022.

MENDONÇA, T. C. M.; MORAES, E. A. ; CATARCIONE, F. L. C. Turismo de base comunitária na região da Costa Verde: refletindo sobre um turismo que se tem e um turismo que se quer. Caderno Virtual de Turismo (UFRJ), Rio de Janeiro, v. 16, p. 232, 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18472/cvt.16n2.2016.1185. Acesso em 11 out 2022.

MILANO, C. (2018). Overtourism, malestar social y turismofobia. Un debate controvertido. Pasosonline. Vol. 16 N3. Págs. 551-564.

NÚÑEZ, E. B. El enclave turístico y laimagendel “buensalvaje” americano Un abordaje iconográfico. Estud. perspect. tur. [online]. vol.26, n.4, pp.760-780. ISSN 1851-1732. Buenos Aires, set, 2017. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1851-

17322017000400 001&lng=es&nrm=iso. Acesso em 11 out 2022.

NÚÑEZ, E. B. Ciudades Amuralladas del Siglo XXI: producción del espacio y colonialidad en el turismo de playa intramuros en Guanacaste, Costa Rica. Revista Latino-Americana de Turismologia, 2(1), 71-83. 2016.

SADER, E. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

SAMPAIO, C. A. C. Pensando o conceito de turismo comunitário. Belo Horizonte: ANPTUR, 2008.

TILLY, C. Contentious performances. Cambridge Univ. Press, 2008.


 

Obs1: Este artigo compõe parte da pesquisa de doutorado “Nós vamos hackear o turismo!” Entre roteiros, “quebradas” e resistências na cidade de São Paulo defendida no ano de 2022 na Universidade de São Paulo. A pesquisa, realizada com base na etnografia urbana, investigou a relação entre turismo, movimentos sociais e patrimônio cultural na cidade de São Paulo.


Obs2: Paulo Tácio é Turismólogo pelo Instituto Federal de São Paulo. Mestre em Mudança Social e Participação Política e Doutor em Turismo pela Universidade de São Paulo. Agente Cultural da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Santo André. Membro da Rede Paulista de Educação Patrimonial (REPEP).

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