Pensar a turistificação a partir da obra de Bad Bunny
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Clément Marie dit Chirot | Universidad de Angers & Alba Sud
Artigo Original: Pensar la turistificación desde la obra de Bad Bunny.
Tradução: Rita Gabriela Carvalho e Carolina Castellitti
Bad Bunny, cantor porto-riquenho conhecido internacionalmente, tornou-se um símbolo de resistência cultural e de defesa da identidade porto-riquenha e latino-americana com seu último álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Revisamos sua discografia e a progressiva politização de sua obra, assim como o projeto de educação popular que integra seu trabalho.

Crédito: Imagem de Kevin Escate.
O sucesso de Bad Bunny é, sem dúvida, um dos fenômenos culturais mais importantes dos últimos anos. Artista mais ouvido em nível mundial na plataforma Spotify durante vários anos consecutivos, o cantor porto-riquenho não apenas deu ao reggaeton e à música latina - junto com outros artistas como Karol G e J Balvin - uma audiência global, como também se tornou um símbolo de resistência cultural e de defesa da identidade porto-riquenha e latino-americana. A influência do artista ultrapassou inclusive a indústria da música e parece ter se tornado objeto de interesse no âmbito acadêmico, a julgar pelo número crescente de artigos científicos, teses e dissertações dedicados à sua música, ou pelo uso de sua obra como ferramenta pedagógica em diversas universidades, como no caso do projeto Bad Bunny Syllabus, impulsionado pela Loyola Marymount University. Entre os temas mais destacados, esses trabalhos têm se concentrado no caráter subversivo do artista, insistindo particularmente em como a obra do Coelho Mau questiona os estereótipos de gênero e as representações dominantes da masculinidade (Díaz Fernández, 2021; Martínez González & García Ramos, 2024), ou no papel de Bad Bunny - junto com outros artistas como Residente e Ricky Martin - no movimento social que teve lugar em Porto Rico em 2019, o qual culminou na renúncia do governador Ricardo Rosselló (Stambaugh, 2020).
Outra dimensão notável é a posição adotada por Bad Bunny diante das problemáticas turísticas enfrentadas por Porto Rico. Esse aspecto tem sido amplamente comentado e debatido após o lançamento do álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS (DTMF), no início deste ano. Ao mesmo tempo em que constitui uma homenagem à música tradicional porto-riquenha, o mais recente disco de Bad Bunny é atravessado por mensagens políticas relacionadas ao fenômeno da gentrificação turística vivenciado por Porto Rico, denunciando as lógicas de espoliação que isso implica no arquipélago. Nesse sentido, DTMF marca uma nova etapa na trajetória, tanto artística quanto política, de Benito Antonio Martínez Ocasio. Embora o álbum pudesse ter se limitado a ser um testemunho sobre as dinâmicas turísticas em Porto Rico, a mensagem política transmitida no disco encontrou eco em outras regiões turísticas, como nas Ilhas Canárias, onde a canção “Lo que pasó en Hawaï” tornou-se viral entre os movimentos sociais contra a turistificação. A julgar pelas dezenas de matérias na imprensa, incluindo um artigo na prestigiada revista Jacobin, além das centenas de textos em blogs e comentários nas redes sociais, não há dúvida de que DTMF é, atualmente, uma contribuição importante para o debate público sobre os processos de turistificação e, como tal, coloca uma série de questões para aqueles de nós que nos dedicamos ao ensino e à pesquisa sobre esse tema.
“El Apagón – Aqui Vive Gente”, ou a invenção do “perreodismo” crítico
O compromisso de Bad Bunny com a resistência do povo de Porto Rico diante dos despojos causados pelo turismo não é algo recente. Em 2022, a posição do artista a esse respeito tornou-se pública quando ele lançou o videoclipe da canção “El Apagón” (O Apagão), presente no já clássico e multipremiado álbum Un Verano Sin Ti (Um verão sem você). O título da música faz referência aos apagões enfrentados por Porto Rico desde a passagem do furacão Maria, em 2017, e à decisão das autoridades locais de confiar o fornecimento de energia elétrica a uma empresa privada, mergulhando a ilha em uma grave crise energética.
Apesar do título, “El Apagón” não é propriamente uma canção política, ao menos não de maneira tão explícita. Ela fala do orgulho de ser boricua, e o cantor ironiza o fato de que “agora todos querem ser latinos” desde que o reggaeton se tornou um dos gêneros musicais mais populares em escala global. O vídeo começa como um típico clipe de reggaeton e, após uma breve alusão à crise energética ilustrada com trechos de telejornais, exibe imagens de festa, lembrando que, apesar das adversidades vividas por seus habitantes, Porto Rico continua sendo a “capital do perreo” (rebolado). No entanto, em vez de se encerrar com o fim da música, o vídeo se estende por mais dezenove minutos, durante os quais o ritmo caribenho dá lugar a um documentário produzido pela jornalista porto-riquenha Bianca Graulau, que nos recorda que, por trás da imagem idílica de Porto Rico promovida pelos videoclipes, “aqui vive gente”.
Longe do ambiente leve que caracteriza a primeira parte do vídeo, “Aquí vive gente” descreve de maneira precisa as consequências sociais do desenvolvimento turístico na ilha. O documentário centra-se principalmente nos casos de Puerta de Tierra e Santurce, bairros historicamente populares situados na periferia do Velho San Juan. A partir de uma série de entrevistas com moradores, ativistas e representantes das autoridades locais, Bianca Graulau documenta as transformações enfrentadas por esses bairros desde a promulgação da “Lei 22”, um dispositivo fiscal que oferece importantes vantagens a investidores estrangeiros em Porto Rico. Após o furacão Maria, os efeitos da Lei 22 tornaram-se mais evidentes, e a crise enfrentada por Porto Rico transformou a ilha em uma terra de oportunidades para aqueles que buscavam investir adquirindo propriedades a baixo custo. O esquema descrito pela jornalista dificilmente poderia ilustrar de forma mais contundente a lógica do “capitalismo de desastre”, tal como descrita por Naomi Klein. Somente no bairro de Puerta de Tierra, dezenas de imóveis foram adquiridos por esse meio nos últimos anos. O documentário mostra como edifícios antes destinados à moradia popular foram convertidos em aluguel por temporada, provocando o deslocamento de inquilinos que não podiam arcar com o aumento dos aluguéis - fenômeno ao qual o podcast Radio Ambulante também dedicou um episódio naquele mesmo ano. Bianca Graulau documenta ainda o caso de uma escola pública adquirida por um investidor estadunidense e convertida em aluguel por temporada, sendo o fechamento em massa de escolas outra dimensão trágica da crise estrutural que atinge a ilha. A jornalista evidencia a complacência das autoridades locais, bem como o financiamento de campanhas políticas por investidores beneficiários da Lei 22. Após analisar o processo de gentrificação turística em Puerta de Tierra, o documentário revela outra face do despojo com o fenômeno da privatização das praias públicas em decorrência da construção de residências de luxo e complexos turísticos, que restringem o acesso da população local. Embora o documentário insista sobretudo nos mecanismos de espoliação, também deixa entrever como a sociedade porto-riquenha tem se organizado para enfrentar o problema, como no município de Rincón, onde os protestos das comunidades locais conseguiram impedir a ampliação de um complexo turístico-residencial e a construção de uma piscina em uma praia pública.
A reportagem representa, sem dúvida, um material de grande qualidade informativa sobre a realidade do fenômeno da turistificação em Porto Rico. No entanto, o interesse de “Aquí vive gente” também reside em seu aspecto formal, ao representar um tipo inédito de associação entre um trabalho jornalístico e um videoclipe, neste caso de reggaeton, que alguns comentaristas qualificaram, em tom humorístico, como “perreodismo”. Em uma entrevista bastante elucidativa, Bianca Graulau relata o processo que a levou a colaborar com Bad Bunny desde que foi contatada por um dos produtores do cantor: “Benito gosta do seu trabalho e gostaria de lhe oferecer sua plataforma para fazer uma das reportagens que você costuma realizar” - narra Graulau. Embora inicialmente tenha ficado incrédula, a jornalista explica que a proposta do artista lhe permitiu dar outra dimensão ao seu trabalho e contar com uma equipe de jornalistas investigativos, da qual fez parte a jornalista Laura Pérez Sánchez, que resume as implicações do projeto ao afirmar que a “intimidou saber que isso poderia ter uma plataforma e uma audiência imensa, algo que o meu trabalho jamais teve (…) e é isso que mais desejamos como jornalistas”. No momento de finalizar este artigo, o vídeo acumula mais de 15 milhões de visualizações no YouTube.
A politização progressiva da obra do “Coelho Mau”
O assunto poderia ter parado por aí. De fato, Bad Bunny parece manter uma relação complexa com a política e dificilmente se deixa enquadrar na figura habitual do “artista político”. Diferentemente de outros artistas - e salvo em algumas canções explicitamente políticas, como o dueto “Afilando cuchillos” (Afiando facas) com Residente - os temas políticos e sociais aparecem de maneira mais fugaz ou subliminar nos primeiros discos de Bad Bunny, misturando-se a temas mais leves. Na música “Los Pits”, do álbum Nadie sabe lo que va a pasar mañana (Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã) (2023), o cantor alude de forma irônica às suas próprias ambiguidades e contradições como artista: “Eu poderia estar rimando sobre temas profundos, mas chegam os cheques e eu meio que me confundo”. A crítica ao turismo, contudo, aparece de modo sutil em diferentes canções do artista, como em “Andrea”, do álbum Un Verano Sin Ti (2022), na qual narra de maneira comovente a vida de uma jovem porto-riquenha. Bad Bunny relata, em particular, a frustração provocada pela falta de oportunidades e pelo peso de uma cultura conservadora para uma jovem boricua que, por mais que ame sua ilha natal, “quer ficar em PR, não ir para nenhum estado”, e acrescenta que está “cansada de esperar gorjeta e do que sua família opina”. Por meio do exemplo de Andrea, o artista ecoa a experiência de uma juventude sacrificada que, como ele mesmo diz, “merece tanto, e recebe tão pouco”.
A preocupação com questões sociais parece ter se consolidado como um tema central na obra do Coelho Mau à medida que a crise social em Porto Rico se aprofundou. Nos meses que antecederam o lançamento de DTMF, Bad Bunny marcou o sétimo aniversário do furacão Maria publicando a canção “Una velita” (Uma velinha), escrita quando sua ilha natal enfrentava a passagem do furacão Ernesto, em agosto de 2024: “Obviamente a luz vai acabar / Deus sabe se um dia vai voltar / A ponte que demoraram para construir / O rio, ao subir, vai derrubar / Um par de músicas guardadas no celular / Pra quando o sinal cair / O sinal já foi dado e não querem ver”.
Em “Una velita”, Bad Bunny expressa o descontentamento que sente em relação à classe política, cujo cinismo e inépcia ficaram evidentes no contexto pós-furacão Maria, recordando as 5.000 vítimas causadas pelo desastre. Como demonstrou um estudo realizado pela Harvard University, o saldo trágico desse evento não se explica principalmente pelas consequências diretas do furacão, mas pela falta de resposta das autoridades quando o sistema de saúde local estava colapsado, privando a população do acesso a cuidados médicos básicos. Como documentou Naomi Klein em um livro dedicado à situação em Porto Rico, a resiliência dos porto-riquenhos diante da crise provocada pelo furacão Maria não se deveu à ação do Estado, mas às iniciativas comunitárias e à solidariedade entre a população. Na “batalha pelo paraíso” que está sendo travada na ilha, Bad Bunny assume um protagonismo cada vez maior e faz um chamado claro à solidariedade comunitária e à luta social como única alternativa frente ao capitalismo de desastre: “Falta que o boricua queira despertar / Não se esqueçam da velhinha dali / Que vive sozinha, é preciso ir ajudá-la / Lembrem que todos somos daqui / Ao povo cabe salvar o próprio povo”.
DeBÍ TiRAR MáS FOToS: a crítica ao turismo no centro de uma obra complexa
Esses elementos lançam luz sobre o contexto em que é lançado o mais recente álbum de Bad Bunny, DeBÍ TiRAR MáS FOToS (DTMF), e sobre a politização de sua música ao longo de sua discografia. No que diz respeito ao turismo, Bad Bunny aprofunda em DTMF sua crítica ao desenvolvimento turístico em Porto Rico, explorando outras dimensões da espoliação, mas também outras formas de transmitir mensagens políticas. Desta vez, o fio condutor do álbum é o tema da memória, como explica o artista em entrevista ao The New York Times. Ao mesmo tempo em que reivindica suas raízes culturais e resgata o patrimônio musical tradicional porto-riquenho, Bad Bunny expressa sua preocupação diante das transformações culturais geradas pela turistificação em Porto Rico. Se em “Aquí vive gente” eram analisadas as dimensões econômicas da gentrificação turística, o lançamento de DTMF é acompanhado por outro objeto singular: o curta-metragem intitulado Debí tirar más fotos, no qual são abordadas de maneira específica as consequências culturais da turistificação. Não se trata, aqui, de um documentário. Bad Bunny opta por um tom ficcional e poético em um curta cujo protagonista é o cineasta e poeta porto-riquenho Jácobo Morales. Não é a primeira colaboração entre Bad Bunny e Morales: o cineasta já havia participado do videoclipe da canção “Desde el Corazón” (Desde o Coração), publicada em 2018, quando o artista estava prestes a lançar seu primeiro disco e ainda não era uma estrela de alcance mundial. Essa nova colaboração reflete a relação privilegiada entre os dois artistas, pertencentes a gerações distintas e ambos figuras centrais da cultura porto-riquenha contemporânea. Percebe-se, inclusive, um sentimento de identificação mútua assumido de maneira simbólica no videoclipe da canção “Mi baile favorito” (Meu Baile Favorito), no qual os dois interpretam o mesmo personagem em idades diferentes.
Em Debí Tirar Más Fotos, Jacobo Morales interpreta um idoso que observa com nostalgia as mudanças provocadas pelo turismo em seu bairro. O homem compartilha seus sentimentos com seu amigo e confidente “Concho”, um sapo concho membro de uma espécie endêmica de Porto Rico atualmente ameaçada de extinção. O sapo, cuja presença frágil é colocada em risco pela degradação de seu habitat natural e pela crise ecológica, torna-se aqui uma metáfora do povo porto-riquenho deslocado pelo turismo. O idoso sente-se perdido em seu próprio bairro, onde a padaria que frequentava desde sempre foi transformada em um café voltado para turistas, onde é mais fácil pedir um “quesito sem queijo” (queijinho sem queijo) ou um queijinho vegano do que um queijinho tradicional, e onde se aceitam apenas pagamentos por aproximação para que a nova clientela possa desfrutar de um “cashless environment”. Conversando com Concho, o idoso se lembra com nostalgia do “som do bairro”, que já não se ouve desde que os jovens partiram - “sinto falta de ouvir a juventude”, diz ele. Nesse sentido, o curta-metragem ilustra o sentimento de perda experimentado por moradores de muitos bairros turistificados, fenômeno analisado por Agustín Cocola-Gant. Como observa o geógrafo, o deslocamento gerado pelo turismo não se limita ao aspecto material ou à questão da moradia, uma vez que os habitantes de bairros turísticos podem sentir-se deslocados mesmo permanecendo fisicamente em seu entorno. Quando as transformações do espaço alteram a vida cotidiana e rompem a relação íntima com o lugar, incluindo as relações sociais que o constituem, gera-se um sentimento de desenraizamento cujas consequências psicológicas são comparáveis a um processo de luto (Cocola-Gant, 2023) e contribuem para o mal-estar associado à turistificação.
A preocupação de Bad Bunny com a espoliação material e cultural em Porto Rico também atravessa as letras de canções como “Lo que pasó en Hawaii” (O que aconteceu no Hawaii), na qual o cantor observa com inquietação as semelhanças entre o que ocorre atualmente na ilha e o que aconteceu no Hawaii, outro território turístico marcado pelo colonialismo estadunidense: “Querem tirar meu rio e também a praia / Querem o meu bairro e que teus filhos vão embora / Não solte a bandeira nem esqueça o lelolai / Que não quero que façam contigo o que aconteceu com o Havaí”. Na música “Turista”, a relação entre turistas e população local é comparada a um vínculo amoroso superficial: “Na minha vida você foi turista / você só viu o melhor de mim, e não o que eu sofria / foi embora sem saber o porquê, o porquê das minhas feridas / e não cabia a você curá-las / você veio para se divertir, e a gente se divertiu”. Caso a mensagem não estivesse clara, o videoclipe da canção ilustra o abismo que separa turistas e moradores locais. Bad Bunny interpreta um trabalhador responsável pela limpeza de um apartamento de aluguel por temporada, no qual ainda se observam os vestígios de uma noite de festa. O trabalhador mal termina seu serviço e sai do imóvel quando os próximos hóspedes entram, mas os dois mundos sequer chegam a se cruzar. Ironicamente, ouve-se do táxi que trouxe os turistas a música “Voy a llevarte pa PR”, e Bad Bunny parece consciente de que o sucesso de sua música contribui para popularizar Porto Rico como destino turístico. O único contato dos turistas com a realidade local ocorre nos segundos finais do vídeo, quando o casal - aparentemente dos Estados Unidos - enfrenta um apagão que remete à canção “El Apagón”. Na última faixa do disco, “La mudanza” (A mudança), o apego de Bad Bunny à sua ilha natal é expresso de forma mais combativa, e as palavras que encerram o álbum soam como um lema dirigido à juventude porto-riquenha e aos movimentos de resistência frente à turistificação: “Daqui ninguém me tira, daqui eu não me movo. Diz pra eles que esta é a minha casa, onde nasceu meu avô. Eu sou de P-Fuckin-R”.
Do entretenimento à educação popular: a difusão do pensamento crítico
O fato de o mal-estar decorrente da turistificação em cidades da Europa e da América Latina repercutir na cultura popular, particularmente na música urbana, é um indicativo da amplitude do fenômeno no contexto atual. Contudo, diferentemente de outros artistas, no caso de Bad Bunny estamos diante de um projeto global, articulado e coerente, cujo ineditismo se revela particularmente significativo.
Em DTMF, o empenho em fomentar o debate e promover a conscientização política atinge um nível inusual, e o álbum incorpora, de forma explícita, um projeto de educação popular. Tal como anos antes, ao mobilizar sua plataforma para promover o trabalho jornalístico de Bianca Graulau, Bad Bunny decidiu associar-se ao historiador Jorell Meléndez Badillo, professor da University of Wisconsin–Madison e autor de obra recente dedicada à história de Porto Rico. De maneira semelhante ao narrado por Bianca Graulau, o acadêmico relata que, nas semanas que antecederam o lançamento de DTMF, foi contatado pela equipe de Bad Bunny com uma proposta bastante incomum. Desta vez, a intenção do artista consistia em utilizar os recursos visuais que acompanhariam cada faixa do álbum nas plataformas musicais para divulgar conhecimentos críticos sobre a história de Porto Rico.
Em poucas semanas, o historiador redigiu 17 slides nos quais se abordam, de maneira sintética, uma série de temas e acontecimentos-chave da história porto-riquenha, desde a conquista espanhola até a anexação aos Estados Unidos, as lutas históricas dos trabalhadores do campo ou do setor operário, o movimento feminista, a diáspora porto-riquenha nos Estados Unidos, o movimento estudantil ou a crise da dívida. “Para Benito, isso era muito importante, pois parte da ideia de que a população de Porto Rico não conhece a própria história”, explica o pesquisador na entrevista. Ele próprio acrescenta que isso se deve “em parte ao fechamento de escolas, que constitui a investida neoliberal das políticas de austeridade que encerraram mais de 400 escolas nos últimos anos”.
Evidentemente, é impossível saber com precisão que atenção o público dedicou ao conteúdo historiográfico desses materiais visuais. No entanto, ainda que apenas uma minoria das reproduções tenha implicado uma leitura detalhada, parece pouco questionável que esse modo original de divulgação permite uma difusão em larga escala, sem comparação possível com os formatos habituais de divulgação científica. No entanto, no momento da conclusão deste texto, somente no YouTube, os slides acumulavam mais de 500 milhões de visualizações e vinham sendo utilizados por professores como ferramentas didáticas, ao passo que a revista Jacobin mencionava o “redescobrimento da história radical de Porto Rico” possibilitado por DTMF.
Essa iniciativa adquire um significado especial se recordamos as controvérsias que marcaram os primeiros passos de Bad Bunny como artista, bem como a troca que teve, em 2018, nas redes sociais, com uma professora que havia expressado seu desespero diante das letras de certas canções e do mau exemplo que, segundo ela, o artista representava para a juventude. Visivelmente afetado pelo argumento segundo o qual sua música estava contribuindo para criar uma “geração de imbecis” em Porto Rico, o 'Conejo Malo' já expressava, então, sua preocupação com a questão educacional e com o estado de abandono em que se encontrava o sistema escolar na ilha: “Agradeço o esforço que faz pelas crianças do meu país ao educá-las, apesar de um salário injusto e da escassez de recursos por parte do governo; e confesso que, assim como a senhora, dói-me na alma cada escola que é fechada. Só no meu bairro, fecharam três escolas, sendo uma delas a minha primeira escolinha, onde aprendi a ler tudo o que hoje escrevo”, escreveu o cantor na carta dirigida à professora.
Sete anos depois, essa preocupação ganha forma concreta na aliança entre Bad Bunny e um acadêmico, colaboração ainda mais significativa após a segunda eleição de Donald Trump e a intensificação simultânea dos discursos racistas contra o povo porto-riquenho, bem como dos ataques à ciência e à liberdade acadêmica. Essa colaboração deve levar-nos a refletir sobre o alcance e as potencialidades desse tipo de alianças entre a pesquisa crítica e os segmentos progressistas do setor cultural e artístico.
Efeitos paradoxais no turismo em Porto Rico
Para além dos debates em torno da turistificação suscitados por DTMF, o sucesso da música de Bad Bunny vem produzindo efeitos concretos sobre a atividade turística em Porto Rico. Após o anúncio de uma série de 30 shows do artista na cidade de San Juan, durante o verão de 2025, bem como a venda de 450 mil ingressos no âmbito da residência artística intitulada No me quiero ir de aquí, o turismo disparou na ilha, alimentando comentários e especulações acerca do chamado “efeito Bad Bunny” na economia local.
Segundo o jornal financeiro Bloomberg, com base em dados da plataforma Booking.com, o “Bunny Bump” reflete-se nos números das reservas de voos entre o território continental dos Estados Unidos e Porto Rico, que cresceram 217% em comparação com o verão de 2024, enquanto as reservas de hospedagem registraram aumento de 88%. De acordo com o órgão Discover Puerto Rico, responsável pela promoção do turismo na ilha e igualmente citado pela Bloomberg, a taxa de ocupação hoteleira prevista para o verão de 2025 supera em 67% os índices registrados no ano anterior. Esse crescimento concentra-se sobretudo nos meses de agosto e setembro, uma vez que o artista optou por destinar os primeiros shows ao público local, abrindo as datas subsequentes a fãs provenientes de outros países.
A análise do papel de Bad Bunny na turistificação de Porto Rico dialoga com outros debates em torno do impacto econômico, e turístico, gerado pelas turnês internacionais de artistas como Taylor Swift e Beyoncé nos últimos anos. Inclusive, surgiram neologismos pseudo teóricos como “taylornomics”, para designar o impacto econômico das turnês de Taylor Swift, ou a expressão “Beyoncé blip”, utilizada para explicar o fenômeno inflacionário registrado na Suécia em 2023, quando Beyoncé realizou uma série de shows em Estocolmo.
No entanto, outros observadores adotam uma postura mais prudente diante desse tipo de interpretação que, como adverte o jornalista econômico Romaric Godin, integra a mitologia neoliberal que pretende encontrar soluções mágicas para estimular o crescimento econômico em uma época marcada por um capitalismo moribundo. Embora os efeitos econômicos de tais eventos sejam reais, o jornalista ressalta que se trata, provavelmente, de um fenômeno conjuntural e passageiro, e não de uma tendência estrutural. Mesmo considerando esse argumento, o “efeito Bad Bunny” sobre o turismo em Porto Rico leva-nos a questionar o papel da arte, em particular, da música na construção e circulação dos imaginários turísticos. Essa problemática tem sido objeto de estudos científicos nos últimos anos, como no caso da influência do K-pop no crescimento do turismo na Coreia (Seongseop et al., 2023). O tema assume relevância especial no contexto caribenho, onde o patrimônio musical constitui um dos principais ativos culturais, historicamente com a salsa ou o reggae e, atualmente, com o reguetón (Hernández Acosta, 2020).
O fenômeno adquire nova magnitude na era digital, quando videoclipes se tornam virais, muitos deles filmados em espaços urbanos marginalizados. Como analisaram os pesquisadores Ofer Gazit e Elisa Bruttomesso em estudo centrado nas cidades de San Juan, em Porto Rico, e Kingston, na Jamaica, essas “lógicas do YouTube” podem desembocar em um fenômeno de “extrativismo musical”, ao popularizar bairros pobres e convertê-los em objetos de fantasia e exotização. Por meio de um processo de valorização simbólica, o sucesso da música urbana contribui para moldar o “olhar do turista” e tornar esses espaços desejáveis para visitantes e agentes do setor, abrindo perspectivas de valorização econômica e novos cenários de conflito.
No caso de Porto Rico, essa dinâmica tornou-se visível em 2017, com o sucesso mundial da canção Despacito, de Luis Fonsi e Daddy Yankee, cujo videoclipe foi filmado no bairro popular de La Perla, em San Juan. Gazit e Bruttomesso observam que o bairro foi escolhido por ser o único local da cidade onde um conjunto habitacional de interesse social se situa à beira do mar do Caribe, em uma intenção explícita de estetização da pobreza urbana, contribuindo para processos de gentrificação (Santiago-Bartolomei, 2022).
Esse tipo de lógica reflete a complexidade do fenômeno turístico e nos lembra que o mercado possui uma capacidade de recuperação praticamente infinita quando se trata de converter em mercadorias os símbolos de movimentos subversivos, basta fazer uma viagem a Chiapas, onde proliferam camisetas e canecas estampadas com o rosto do subcomandante Marcos ou com símbolos do EZLN, para nos convencermos disso. No entanto, essa constatação não deve desviar a reflexão nem nos levar a críticas simplistas, atribuindo aos artistas a responsabilidade pelos efeitos negativos da turistificação.
A resposta às lógicas de despossessão associadas ao turismo não pode se limitar a manter os lugares em segredo, visando apenas preservá-los da presença de visitantes. No contexto das resistências à turistificação, o verdadeiro desafio reside em reivindicar políticas de regulação que atuem em favor da sociedade e do bem comum, em vez de se subordinarem aos interesses do capital turístico. Sob essa perspectiva, a transformação do turismo dependerá da capacidade das comunidades receptoras de se mobilizarem e exigirem tais regulações.
Desde sua trincheira como artista, Bad Bunny vem contribuindo para essa tomada de consciência global e para a construção de uma comunidade de afetos, uma “estrutura de sentimentos”, como diria o marxista britânico Raymond Williams. Tal ideia encontra-se na síntese das palavras proferidas por Jacobo Morales ao final do vídeo da canção Desde el corazón: “Hoje e amanhã, (…) continuará sendo nossa música porta-voz de realidades e aspirações, e testemunho de nossa identidade. Ela nos acompanhará em toda a nossa luz e em todas as nossas sombras. Nos ventos suaves e nos mais fortes. Quais serão os ventos do amanhã? Que a juventude sustente a chave!”.
Para aqueles que nos dedicamos à docência em temas ligados ao turismo, é certo que Bad Bunny nos forneceu um material de grande riqueza, do qual podemos nos apropriar para sensibilizar públicos jovens acerca dos efeitos do turismo. Como pesquisadores, sua obra abre perspectivas estimulantes para pensar a difusão do conhecimento crítico sobre a turistificação do mundo. Uma possibilidade seria esperar que o artista nos contatasse e colocasse sua fama a serviço de nossas investigações; outra consistiria em inspirar-nos em sua obra para consolidar nossos vínculos com os atores do campo cultural, em geral, e, em particular, da música popular.
Referências
Cocola-Gant, A. (2023). Place-based displacement: Touristification and neighborhood change. Geoforum, 138.
Díaz Fernández, S. (2021). Subversión, postfeminismo y masculinidad en la música de Bad Bunny. Investigaciones Feministas, 12(2), 663–675.
Gazit, O., & Bruttomesso, E. (2023). Musical extractivism and the commercial after-life of San Juan's (PR) La Perla and Kingston's (JM) Fleet Street. In I. Sanchez-Fuarros, D. Paiva, & D. Malet Calvo (Eds.), Ambiance, Tourism and the City. Londres: Routledge.
Hernández-Acosta, J. (2020). A bottom-up strategy for music cities: The case of San Juan, Puerto Rico. In C. Ballico & A. Watson (Eds.), Music Cities: Evaluating a Global Cultural Policy Concept. Cham: Springer International Publishing.
Klein, N. (2018). The Battle For Paradise: Puerto Rico Takes on the Disaster Capitalists. Chicago: Haymarket Books.
Martínez González, J., & García Ramos, F. (2024). La revolución del perreo: Bad Bunny y la subversión de los roles de género en el videoclip Yo perreo sola (YHLQMDLG, 2020). Revista Comunicación, 22(1), 136–154.
Meléndez-Badillo, J. (2024). Puerto Rico: Historia de una nación. Princeton: Planeta Publishing.
Santiago-Bartolomei, R. (2022). In two Caribbean cities, digital platforms drive gentrification. NACLA Report on the Americas, 54(3), 324–329.
Stambaugh, E. (2020, 7 de maio). Bad Bunny’s influence on the #RickyRenuncia Movement. The Texas Orator.