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O perfil dos trabalhadores e trabalhadoras da alimentação na cidade de Arraias/ Tocantins

Willian Soares Cunha & Cecília Ulisses Frade dos Reis



A ocupação que deu origem à cidade de Arraias/ Tocantins, a 424km da capital Palmas, se deu, inicialmente, na região da Chapada dos Negros, local para onde pessoas negras de diversos estados se refugiavam e que, posteriormente, foi palco de atividade mineradora com uso da força de trabalho de pessoas negras escravizadas (Gualberto et al., 2020). Além disso, há diversas comunidades quilombolas na região, aludindo a um passado marcado pela resistência do povo negro e pela escravidão.


Além da história de quase três séculos, a cidade também tem belezas naturais e busca no turismo uma forma de dinamizar sua economia. Diante da importância do setor de alimentação para que o turismo aconteça, esse texto é fruto do trabalho de conclusão de curso do primeiro autor, que buscou caracterizar o perfil dos trabalhadores e trabalhadoras da alimentação em Arraias.



Desse modo, foram enviados questionários a grupos de WhatsApp voltados ao comércio de refeições e a pessoas que trabalham em estabelecimentos com esse fim.

A partir da aplicação do questionário, foram obtidas 30 respostas válidas, das quais 70% foram de pessoas do sexo feminino (21 pessoas) e 30% masculino (9 pessoas). Apesar da amostra dessa pesquisa ser pequena e portanto não nos permitir afirmar que na cidade pesquisada a maior parte dos empregos é ocupada por mulheres, vale lembrar que, mundialmente, o setor de turismo é majoritariamente feminino (Baum, 2013).


Com relação à idade, uma pessoa informou estar abaixo dos 18 anos. Oito pessoas estavam na faixa de 19 a 25 anos, seis pessoas de 26 a 30 anos de idade, sete pessoas de 31 a 40 anos. Em seguida, encontra-se o grupo que possui de 41 a 50 anos, com quatro pessoas; duas pessoas de 51 a 60 anos e uma pessoa acima dos 60 anos.


Com relação a cor ou raça, conforme a classificação utilizada pelo IBGE, nota-se a prevalência da população negra entre os/as respondentes, como já era de se esperar, já que 89% da população da cidade é negra, conforme o senso de 2010, dados da SEPLAN (Secretaria de Planejamento e Orçamento do estado do Tocantins), publicados em 2021. Assim, 43,3% (13 pessoas), se declararam pretas e a mesma porcentagem se declarou parda, seguido de 10% de pessoas brancas (3 pessoas) e 3,3% amarela (1 pessoa). Acrescenta-se que nenhum dos/as respondentes identificou-se como uma pessoa com deficiência.


Outro ponto a ser salientado refere-se ao estado civil dos/as entrevistados/as, de modo que 56,7% (17 pessoas) afirmaram ser solteiros/as, 36,7% (11 pessoas) casados/as ou morando com um/a companheiro/a, enquanto 6,7% (2 pessoas) afirmaram serem divorciados/as.


Com relação ao número de filhos/as, 13 pessoas não possuem, enquanto 6 pessoas têm apenas 1 filho/a, e também 6 pessoas que têm dois filhos/as. Ainda, 13,3% (4 pessoas) tem 3 filhos/as e 3,3% (1 pessoa) tem 4 filhos/as.


Com relação ao grau de escolaridade, 13,3% (4 pessoas) possui ensino médio incompleto, 26,7% (8 pessoas) ensino médio (2º grau) completo, 16,7% (5 pessoas) possuem o nível superior incompleto, e com 43,3% (13 pessoas), têm o nível superior completo, o que certamente se relaciona, dentre outros fatores, à existência de um campus da UFT na cidade. Trata-se de uma diferença enorme com relação à realidade nacional, já que apenas 2,5% das ocupações no setor de alimentação eram de pessoas com o ensino superior completo em 2019 (Reis; Nakatani, 2022).


Metade das pessoas que participaram da pesquisa afirmaram ser a principal responsável pela fonte de renda em sua casa. Separamos a forma de inserção no setor de alimentação em três categorias: 1) pessoas que trabalham em casa, vendendo os alimentos por encomenda, tendo com uma das formas de divulgação o grupo de WhatsApp no qual a pesquisa foi divulgada; 2) pessoas que trabalham como funcionária em algum estabelecimento (bares, restaurantes, lanchonetes e etc.); 3) pessoas que trabalham em algum estabelecimento do qual são proprietárias.

Assim, 16 pessoas (53,3%) se encaixam no primeiro grupo e 14 se dividem entre os grupos 2 e 3, de maneira que 10 pessoas (33,3%) são funcionárias e 4 pessoas (13,3%) são donas de algum estabelecimento. A seguir, traremos as informações a respeito do trabalho em cada um desses três cenários.



1. Pessoas que trabalham em casa


As 16 pessoas desse grupo comercializam uma variedade de alimentos e/ou bebidas, tais como bolos, doces, pudins, sobremesas, lanches, salgados, sanduíches, hortaliças, dindin gourmet, refeições, refrigerantes e sucos. Quatro delas possuem MEI, outras quatro possuem CNPJ e as demais (oito pessoas) não têm o seu trabalho formalizado. Dentre elas, uma pessoa respondeu que possuía MEI, porém, encontrou um trabalho formal, na rede estadual, por isso desativou o registro, mas continua trabalhando com alimentação, vendendo bolos confeitados. Esse dado demonstra que foi dada prioridade ao trabalho formal, enquanto o trabalho com alimentação continuou existindo com um caráter de renda extra (o chamado “bico”).

Também perguntamos a essas pessoas se elas possuíam algum outro tipo de emprego, ao que duas pessoas responderam que possuem outro emprego, com carteira assinada, e cinco pessoas disseram que possuem outro emprego porém sem vínculo empregatício. A maior parte, nove pessoas (56,3%) responderam que não: trabalham apenas com o comércio de alimentos. Assim, também nove pessoas afirmaram ser essa a sua principal fonte de renda, e sete entrevistados/as, disseram que é uma renda complementar a outro trabalho que possuem.


Ainda com relação à renda, sete pessoas ganham até 500 reais por mês, quatro pessoas de R$500,01 a R$1.000,00 por mês, três pessoas responderam que seu rendimento é de R$1.000,01 a R$2.000,00; uma pessoa, renda de R$2.000,01 a R$3.000,00 e uma pessoa respondeu que recebe acima de R$3.000,00. 

Também buscamos identificar com quem elas/es dividiam o trabalho de produção ou de entrega dos produtos, ao que oito pessoas responderam que fazem tudo sozinhas, quatro dividem o trabalho com algum familiar e quatro possuem ajuda remunerada.

 


2. Pessoas que trabalham em um estabelecimento como funcionárias


Para o grupo que disse ser funcionário algum estabelecimento (formado por dez pessoas), no que se refere à renda, obtivemos o seguinte quadro: oito pessoas faturam até 1 salário mínimo (R$1.320,00) e duas pessoas entre 1 e 2 salários mínimos (de R$1.320,00 a R$2.640,00). Com relação à carga horária, 7 deles trabalha até 30 horas semanais, 1 pessoa até 44 horas semanais e 2 pessoas, acima de 44 horas semanais. Apenas uma dessas pessoas afirmou possuir outra fonte de renda extra.


A escala de trabalho de sete dessas pessoas é 6x1, de duas é 5x2 e de uma pessoa é 12x36. Apenas uma dessas pessoas tem registro em CLT, enquanto as outras nove são funcionárias que se encontram na informalidade, não tendo, assim, nenhum direito trabalhista assegurado.


Com relação ao principal cargo/ função, quatro pessoas responderam ser o caixa, três a função de garçom/ garçonete e três pessoas indicaram a cozinha. Com relação às atividades desempenhadas, o atendimento ao cliente e a administração do caixa foram as mais presentes, seguidas da preparação dos alimentos e por último, atividades relacionadas à limpeza (do ambiente e lavar louça), conforme gráfico abaixo:

 


Quanto ao grau de satisfação com o trabalho, numa escala em que 5 significa muito satisfeito e 1 muito insatisfeito, cinco pessoas afirmaram estar muito satisfeitas, duas deram nota 4, três avaliaram com a média (3) e duas atribuíram o grau 2. Ao serem perguntados sobre a pretensão de continuar na carreira, seis pessoas responderam que têm essa pretensão e quatro que não possuem.


Quatro dessas pessoas trabalham no mesmo estabelecimento há 5 anos ou mais e uma há um período de 3 a 4 anos. Três pessoas se encontram no mesmo emprego há um período entre 1 e 2 anos e duas pessoas há menos de 1 ano.

 


3. Pessoas que trabalham em um estabelecimento como proprietárias


Nesse grupo, três pessoas trabalham em lanchonete e uma em restaurante. Três delas possuem MEI e uma delas está na informalidade. Uma dessas pessoas possui uma equipe de trabalho formada por pessoas que não são da família, enquanto as demais dividem o trabalho com familiares. Com relação à quantidade de pessoas na equipe, uma delas tem cinco pessoas e as demais trabalham com outras duas pessoas.


Com relação à renda gerada pelo estabelecimento, duas pessoas afirmaram que esta varia de R$3.000,00 a R$5.000,00, uma delas de R$2.000 a R$3.000,00 e a quarta pessoa: até R$2.000,00.


Um desses estabelecimentos funciona de segunda a sexta-feira e os outros três todos os dias, incluindo finais de semana. Quanto ao período de existência, um deles funciona há mais de 1 ano e menos de 2 anos e os outros três, há 3 anos ou mais.


Com relação à área de atuação, duas pessoas disseram que a principal é o caixa, uma disse ser o atendimento ao cliente e outra disse ser a cozinha (preparação de alimentos).


Com relação aos pontos negativos de se ter um negócio nessa área em Arraias, as respostas foram: “Encontrar material nos comércios”; “Não há pontos negativos”; “Movimento fraco” e “Falta de renda dos nossos municípios, poucas opções de trabalho”.


Para todas as 30 pessoas que responderam o questionário, foi pedido que avaliasse a possibilidade de atender turistas no seu trabalho com alimentação, ao que sete pessoas afirmaram não ter interesse e vinte e três que tinham interesse.


                                     

Considerações finais


No setor de alimentação em Arraias, foi possível observar a feminização do setor, a existência de baixos salários, com grande parte das pessoas que responderam à pesquisa tendo renda inferior a um salário mínimo e também o alto grau de informalidade. Com relação às dez pessoas que são funcionárias de um estabelecimento, apenas uma delas afirmou possuir registro em carteira. Isso significa que a maior parte dessas pessoas não têm direito a férias, décimo terceiro, seguro-desemprego, dentre outros direitos que lhes deveriam ser assegurados.

Apesar de a amostra da pesquisa poder ser considerada pequena, a vivência dos autores na cidade permite afirmar que, de fato, é bastante comum a existência de relações de trabalho informais na cidade. Esse cenário também, certamente, tem relação com a dinâmica histórica da economia local e a predominância de pessoas negras na cidade, população essa marginalizada na sociedade brasileira, que tem como uma de suas marcas o racismo estrutural. Tais questões são importantes e devem ser consideradas por aqueles e aquelas que têm se dedicado ao planejamento do turismo na cidade.

 


Referências


Baum, T. (2013). International Perspectives on Women and Work in Hotels, Catering and Tourism. Bureau for Gender Equality. International Labour Office, Sectoral Activities Department. Geneva, ILO.

 

Reis, C. U. F. dos; Nakatani, M. S. M. (2022). O trabalho de cozinheiras, cozinheiros e chefs em cozinhas profissionais: reflexões a partir da perspectiva de gênero. Revista de Turismo Contemporâneo, 10(3), 417-436. Disponível em https://periodicos.ufrn.br/turismocontemporaneo/article/view/26902

 

Gualberto, R. D; Ramos Júnior. D. V.; Costa, K. G. (2020). A história da Chapada dos Negros na narrativa dos moradores de Arraias-TO. Revista Temporis [ação], 20(1), 1-23. Disponível em https://www.revista.ueg.br/index.php/temporisacao/article/view/9090

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