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Financeirização no Turismo e Fundos de Investimentos: apostas de quebra e ganhos extraordinários

Renan Augusto Moraes Conceição | USP/Alba Sud/Labor Movens



Quais são as ligações invisíveis entre a crise dos subprimes de 2008, a crescente retomada das atividades turísticas a nível mundial e a crise de escassez global em razão da guerra Rússia-Ucrânia? A resposta está na especulação financeira e ganhos corporativos. Pois então vejamos mais detalhadamente.



Os fundos de investimento


A crise mundial de 2008, já amplamente estudada e entendida, tem causas muito bem conhecidas e essas são encontradas na especulação do capital. Como exemplo, A Grande Aposta (The Big Short), um filme de 2015 dirigido por Adam McKay, conta a história do movimento feito por gestores de fundos de investimento estadunidense no estouro da bolha imobiliária dos EUA no ano de 2008. Esses fundos realizaram operações chamadas de “vendas a descoberto”, operações de altíssimo nível de risco para investidores do mercado financeiro devido à imprevisibilidade das predições.


Fonte: Arte Cines

  

Resumidamente, as vendas a descoberto, ou short sellings, são, na realidade, um procedimento de aluguel de ações, que são vendidas enquanto estão alugadas, e depois devolvidas ao dono original das ações pelo preço determinado no contrato do aluguel. São operações que visam lucrar com a queda do preço de um ativo, como uma ação, um título ou uma moeda. O investidor que faz uma venda a descoberto vende um ativo que não possui, pelo preço atual, esperando comprá-lo de volta por um preço menor no futuro. Assim, as vendas a descoberto se baseiam nas tendências de queda no valor de algumas ações. E os fundos de investimento que utilizam estratégias arriscadas como essa são chamados de fundos de investimento hedge. Foram eles que apostaram na quebra do mercado financeiro em 2008 e saíram vitoriosos, acumulando poder político e financeiro e tornando-se cada vez mais influentes no mercado financeiro. Hoje, fundos de investimento como o Black Rock e Vanguard, que reúnem ativos financeiros das maiores empresas do mundo bem como administram fundos de pensão e ativos financeiros de governos, adotam estratégias arriscadas de investimentos.

 

Sabemos muito bem que, de fato, em 2008, a bolha imobiliária americana estourou e, ao final de todo o período de processos judiciais e intervenção estatal, levou à falência do banco Lehman Brothers, colocando outras instituições financeiras à beira da falência e que, no entanto, foram salvas pelo Estado americano. Com a concretização do estouro da bolha, os fundos de investimento que apostavam nesse cenário lucraram fortunas enormes, tirando proveito do colapso econômico que atingiu muitos países do norte global, levando muitas pessoas a viver tempos difíceis.

 

Mesmo com a enorme crise financeira vivida naqueles anos, a especulação financeira é amplamente realizada em bolsas de valores e pouco regulamentada, demonstrando como o capital sempre encontra meios de se expandir e se concentrar baseado em absolutamente nada. A partir de construção ativos financeiros e operações na bolsa de valores que se valem de empresas reais e negócios concretos, como o mercado imobiliário, a exemplo do que ocorreu em 2008, rapidamente dão origem a uma segunda etapa de produtos financeiros, em um ciclo crescente de ativos cada vez mais arriscados e sem conexão com a economia concreta. Isso é chamado de derivativo subprime, que são instrumentos financeiros que permitem às instituições bancárias transferir parte ou todo o risco de inadimplência de um devedor para um terceiro, em troca de um pagamento, chamado de prêmio, negociando os títulos de dívidas na bolsa. Ou seja, os bancos tentam se ver livres dos riscos por empréstimos arriscados e criam ativos negociáveis em bolsa para, na incerteza de calote, ganhar ainda mais com a negociação desses empréstimos enquanto não ocorre a inadimplência.

 

Por um lado, a financeirização das economias de diversos países, o aporte que Estados fazem em fundos de investimento com suas reservas cambiais, a privatização de empresas públicas de serviços básicos e essenciais representa um risco cada vez maior para a população de muitos países, especialmente os países do sul global. Por outro lado, o crescimento desenfreado de empresas com abertura de capital e a especulação financeira representam riscos também aos países do norte, uma vez que muitos empregos diretos e indiretos dependem dessas empresas.

 

Um artigo da economista Jayaty Gosh publicado no Project Syndicate a respeito do que está por trás da atual crise global de grãos é um bom exemplo do impacto nefasto que o capital especulativo pode causar em termos concretos. Esta crise, acentuada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, encontra sua verdadeira causa na especulação financeira com os índices de preços dessas commodities: "Embora a fome global tenha aumentado nos últimos anos, não é por causa da escassez de grãos. Em vez disso, a queda das exportações, a redução das receitas cambiais, a fuga de capitais e o aumento dos custos de serviço da dívida diminuíram a capacidade de muitos países de importar alimentos", afirma Gosh.

 

Nesse sentido, o jogo especulativo do capital não se interessa pela vida concreta. Quando a razão de ser de uma empresa passa a ser remunerar cada vez mais seus acionistas, muitas vezes, somente um Estado forte e socialmente orientado pode atuar como freio. Yanis Varoufakis, em um artigo publicado em 2021, apontava para essa situação de descolamento entre financeirização e especulação frente a economia concreta. Esse descolamento entre economia financeira e economia real é tão contraditório e problemático que começa a dar início a tentativas heterodoxas de entender mais profundamente o que está acontecendo, como apontam as discussões do próprio Varoufakis e Jodi Dean, no que esses autores chamam de tecno feudalismo. Controvérsias a parte, o fato é que o capital financeiro tem se apresentado como um elemento disruptivo, devendo ser analisado com ainda mais atenção.


Financeirização do turismo e especulação capitalista

 

No turismo, empresas globais de capital aberto participam amplamente desse jogo especulativo. E a função primeira, de fornecer produtos e serviços turísticos (o que já representa um impacto enorme nas dinâmicas ambientais, espaciais, sociais), torna-se meramente acessória. Cadeias de produção e consumo inteiras podem acabar sofrendo os danos de uma quebra generalizada, algo que já não é mais tão impensável desde a ocorrência da pandemia de Covid-19. Este modelo se espalhou globalmente e ameaça sociedades inteiras que sobrevivem do turismo. Isso ocorre porque, quando negociados em bolsa, os ativos das empresas turísticas podem sofrer, como de fato acontece, movimentos altamente especulativos, como as vendas a descoberto. Como se isso não fosse arriscado o suficiente, os fundos de hedge também costumam ter participações em empresas de vários setores, incluindo o turístico, usando seus fundos para especular contra os próprios setores nos quais têm participações.

 

Eis um dos muitos problemas de um turismo orientado pelo capital financeiro. Porém, observemos mais pausadamente o cenário atual. Dessa forma, chegamos a acontecimentos recentes pouco noticiados, ou ao menos não devidamente analisados: o jogo especulativo com as empresas do turismo. Assim como em 2008 os fundos de investimento hedge voltaram suas atenções para o setor do turismo logo no começo da pandemia. Os ganhos, naquele período, foram espetaculares, ajudando a afundar um pouco mais as empresas do setor e causando impactos severos principalmente para os trabalhadores e trabalhadoras, uma vez que muitas dessas empresas iniciaram programas agressivos de corte de custos ou mesmo demissões em massa (que não foram nomeadas assim). A reportagem de James Booth para o jornal City A.M informava que:

 

Cálculos da provedora de dados Ortex Analytics mostraram que os vendedores a descoberto ganharam €853,6 milhões nos primeiros sete meses do ano, um aumento de €174,1 milhões em relação ao mesmo período de 2019, apostando contra as ações relacionadas ao turismo. […] As empresas de viagens e turismo atualmente têm US$ 2,978 bilhões em posições vendidas a descoberto contra elas, um aumento de US$ 200 milhões no último mês, segundo dados da Ortex.

A gravíssima crise vivenciada pelo turismo devido à pandemia animou os investidores, que passaram a apostar na quebra do setor. Ora, os ganhos extraordinários em poucos meses já estavam mostrando que era possível se banquetear como um urubu das carcaças que iriam inevitavelmente surgir com a pandemia. Assim, o capital financeiro dobrou a aposta: empresas aéreas, cadeias hoteleiras, companhias de cruzeiros marítimos, toda a sorte de setores participantes do turismo foi atingida pela sanha especulativa.

 

As apostas short sellings ajudam a entender as dificuldades ocorridas no momento de retomada das atividades turísticas ou mesmo o fechamento de diversas empresas. Cadeias hoteleiras como a Accor encerraram as atividades de múltiplas unidades espalhadas pelo mundo, impactando diretamente economias locais. Companhias aéreas diminuíram a frequência de voos, dispensando contingentes enormes de trabalhadores e sobrecarregando os remanescentes. No entanto, os indicadores de 2023 mostram que o turismo já retornou aos patamares pré pandemia, inclusive superando os índices de 2019, como mostra o último boletim da Organização Mundial do Turismo (OMT). Ainda hoje, o setor aéreo segue apresentando tarifas elevadas em comparação com as tarifas anteriores à pandemia, sem previsão de baixa.


Curiosamente, o setor ainda encontra diversas dificuldades mais sérias do que as estatísticas fazem crer. Cidades turísticas, a exemplo do Rio de Janeiro, enfrentam a transformação de hotéis tradicionais em empreendimentos comerciais sem ligação com o turismo, uma vez que outros setores tornaram-se mais rentáveis para investidores. O cenário de otimismo com o turismo mundial enfrenta, ao menos no Brasil, algumas dificuldades advindas da pandemia e que ainda não foram mitigadas totalmente.

 

As vagas de emprego em empresas turísticas, por outro lado, enfrentam a falta de profissionais preparados para preenchê-las, um reflexo da mudança advinda da pandemia, com profissionais migrando para outros setores e, ao mesmo tempo, devido à baixa remuneração e alta exigência das empresas de turismo. No Brasil, o mercado tem se referido a isso como um “apagão” de mão de obra, evidenciando, em realidade, uma postura negacionista frente à nova realidade social pós-pandemia.


O capital se beneficiou duplamente da pandemia. Primeiramente, se houve quebra de empresas, fechamento de postos de trabalho, aumento de custos etc., ainda assim, a pandemia auxiliou o capital a se concentrar ainda mais nas mãos de poucos grupos empresariais do turismo, piorando as condições de trabalho e, portanto, aumentando a extração de mais valor dos trabalhadores. Em segundo lugar, um informe do Financial Times, uma das revistas financeiras mais influentes, dá conta do acontecido: mesmo com a crise recém ocorrida, as ações de empresas do setor turístico voltaram a subir e a se fortalecer como nunca. Empresas como Carnival, Royal Caribbean e Airbnb obtiveram ganhos à medida que os consumidores continuam gastando. As apostas contra o turismo feitas pelos fundos de investimento hedge perderam. A pregunta é: até quando?


Fonte: Financial Times


A subida nos preços das ações de empresas de cruzeiro, demonstrada na imagem abaixo, mostra a alta significativa ocorrida a partir do primeiro bimestre de 2023. A Carnival, por exemplo, só apresenta esses números devido ao aumento da dívida feita pela empresa com empréstimos para sobreviver à pandemia.

 

Valorização das ações das companhias de cruzeiros

Fonte: Bloomberg/Financial Times

 

Ou seja, ocorreu uma dupla aposta. Por um lado, os fundos especulativos lucraram muito e dobraram a aposta na quebra generalizada. Por outro lado, as empresas se endividaram e sacrificaram empregos para sobreviver aos abutres financeiros, de olho numa futura retomada da atividade turística. As empresas levaram a melhor no jogo bruto da acumulação capitalista, às custas de uma crise social ainda não inteiramente mitigada e entendida.

 

Assim, o que fica claro é que é urgente a necessidade de impor freios e limites ao capital. E mais ainda ao capital financeiro e especulativo. A “vitória” das empresas frente ao movimento especulativo não representa uma vitória do turismo, como algumas notícias fazem crer, de forma autocomplacente. Pelo contrário, representa o eterno ciclo de desenvolvimento capitalista baseado na geração de crises cada vez maiores (Marx, 1894 [2017]). A cada momento de crise, o capitalismo se expande para horizontes mais distantes, produzindo, em seu bojo, a futura nova crise. A queda para o setor global do turismo, quando ocorrer nos termos da especulação, pode ser pior que a da pandemia. E isso nos abre todo um campo de ação urgente.


Referência:

  

Marx, K. (1894 [2017]). O capital: crítica da economia política: livro III: o processo global de produção capitalista. São Paulo: Boitempo.



*Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, na plataforma da Alba Sud.

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