A objetificação dos trabalhadores do turismo

Ivan Conceição Martins da Silva | FAETEC/RJ [1]



Vários movimentos sociais de combate a opressões contemporâneas marcam em suas pautas uma questão complexa: a objetificação. Movimentos feministas apontam a objetificação das mulheres, desde o uso da imagem em propagandas até os casos de violência de gênero (Davis, 2016). O movimento negro aponta a objetificação de corpos negros, de homens e mulheres colocados em papéis restritos e limitadores (Ribeiro, 2018). No movimento LGBTQ+ pessoas trans e travestis denunciam a objetificação de seus corpos pela via da fetichização sexual e até mesmo como objetos de estudo (e nunca sujeitos da pesquisa) pela academia (Palha, 2020).


E quanto ao turismo? Nos deparamos com discursos que circulam no cotidiano do setor – como o bem receber, o ‘sorriso no rosto’, os padrões de corpos ‘empregáveis’ – e nos perguntamos: os trabalhadores do turismo não são também objetificados? Utilizando de duas obras importantes de Marx (2010; 2017), pudemos identificar que sim, eles são – e, infelizmente, de várias formas diferentes.


Capa do Plano Nacional de Turismo 2018-2022. Fonte: Ministério do Turismo.



Mercado de trabalho, mercado de trabalhadores


É bem sabido que os trabalhadores precisam vender seu trabalho da mesma forma que um agricultor vende seus legumes na feira. Não por acaso chama-se a procura de empregos de ‘mercado de trabalho’. Também é sabido que os trabalhadores se submetem a condições degradantes no trabalho porque precisam vender seu trabalho para sobreviver. E cada vez que um trabalhador é chutado para fora da empresa pela qual ele trabalhou tão sofridamente, ele percebe que é somente um objeto para ela. Somente um produto na prateleira do mercado de trabalhadores.


Marx já nos dizia que no capitalismo: “O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria” (Marx, 2010, p. 80). Temos, assim, uma primeira relação de objetificação do trabalhador: a relação basilar do capitalismo, de redução do trabalhador à mercadoria para o ‘mercado de trabalho’.


Ora, mas essa relação é exclusiva do setor do turismo? Certamente não. Porém, o turismo – por mais que seja composto por diversos ramos de atividades – é constituído predominantemente por empresas privadas. Isso coloca a grande maioria dos trabalhadores do turismo diretamente regida pela relação de objetificação apontada acima. Nessa relação, podemos enxergar alguns dos problemas mais correntes entre trabalhadores do turismo, como a terceirização que vem dominando o setor de eventos, a flexibilização da jornada de trabalho para agentes de turismo e o aumento da competição violenta entre guias de turismo.



Trabalhadores souvenir, sorrisos encantados


Marx também alertou para um processo chamado “fetiche da mercadoria” (Marx, 2017). De acordo com o autor, o capitalismo contrapõe tanto os trabalhadores aos seus próprios trabalhos que os sujeitos são tratados como coisas e os objetos são tratados como sujeitos. Mas será que os trabalhadores do turismo escapam desse processo?


O turismo possui a potencialidade de transformar quase tudo em atrativo. Das manifestações mais abstratas de cultura aos objetos materiais mais artificiais criados. Da pobreza extrema de comunidades à viagem ao espaço sideral. Não é de surpreender, então, que os próprios trabalhadores do turismo possam ser apreendidos como atrativos ou fonte de atratividade[2]. Ou seja, o trabalhador sendo um produto tanto quanto uma praia ou um souvenir – portanto, sujeitos sendo tratados como coisas.


Nesse âmbito podemos pensar em trabalhadores agrícolas, comunidades tradicionais e grupos artísticos cuja própria atividade laboral pode ser apropriada e consumida como atrativos turísticos. Para além da discussão sobre autenticidade por parte dos anfitriões, gostaríamos de pensar o quanto a experiência dos visitantes está atrelada a uma objetificação desses sujeitos. O quanto esses turistas buscam se conectar com os sentidos do trabalho no meio rural, do trabalho imbuído de tradições ou do trabalho artístico? Ou o quanto dessa experiência se trata apenas de um consumo irrefletido e superficial, tão comum no turismo?


Além dessa visão, alguns discursos tratam características biossociais dos trabalhadores do turismo praticamente como mercadorias independentes delas – ou seja, coisas sendo tratadas como sujeitos, seres separados dos humanos.


Um exemplo que atravessa discursos políticos e empresariais é o da hospitalidade ou bem receber, no qual o sorriso aparece como uma potência em si mesma. Certamente esse discurso é reflexo da área de serviços como um todo; mas observamos essa fetichização fortemente no turismo. No curso Brasil Braços Abertos, do Ministério do Turismo (MTur, 2021), é possível encontrar trechos do módulo “A fórmula da satisfação do cliente” com fotos apenas da boca de uma pessoa. O sorriso existe sozinho, desconexo do ser humano que precisa apresentá-lo, ignorando todas as condições que esse trabalhador precisaria ter para ostentar um determinado estado emocional.



Objetos de consumo, objetos de estigma


Em uma última instância, os trabalhadores do turismo aparecem, eles mesmos, como mercadorias a serem consumidas. Esse ‘consumo’ pode ser consciente ou não. O turismo sexual, por exemplo, pode ser um processo no qual trabalhadores do sexo são encarados como objetos de consumo. Não é objetivo deste ensaio discutir as questões éticas sobre consentimento (ou liberdade efetiva para escolha) desses trabalhadores[3]. Queremos refletir aqui apenas a posição que os turistas consumidores assumem quanto a esses trabalhadores. Até que ponto essa busca por sexo em destinos turísticos não se trata de uma objetificação de corpos? Haveria então uma relação com as objetificações mencionadas antes (mulheres, pessoas negras e LGBTQ+)?


Mas para além dessa relação tão clara e específica (turismo e sexual), será que outras interações entre visitantes e trabalhadores também não se baseiam em tal objetificação? Uma breve análise da capa do Plano Nacional de Turismo 2018-2022 (MTur, 2018) pode nos fazer notar que apesar de quatro das cinco pessoas fazerem parte de grupos minoritários, todas vestem uniformes de cargos operacionais: o asiático como garçom, o negro como segurança ou piloto; as duas mulheres como recepcionistas. E, por outro lado, o homem branco aparece no centro da imagem e com a única profissão relacionada a liderança e não obediência, de chef de cozinha. Não seriam todos esses estigmas uma forma de objetificação dos corpos desses trabalhadores, objetificação de seu próprio ser?


Marx demonstra que o estranhamento entre seres humanos chega a tal ponto que cada ser humano não reconhece mais ao outro como um ser, como um igual (Marx, 2010). As relações entre sujeitos passam a assumir formas de objetificação, de incompreensão, de antagonismo. As duas situações acima são indícios de como as relações no turismo podem ser desumanizadas a tal ponto que os trabalhadores sejam tratados apenas como objetos, seja de consumo ou de estigmas.



Classe de objetos, objetivos de classe


Decerto, o que todas essas expressões de objetificação têm em comum é uma inversão de papéis na qual os sujeitos/trabalhadores são vistos como coisas e as coisas como sujeitos. Entretanto, não é possível imaginarmos que todas essas relações sejam acidentais, frutos de turistas mal-educados, instituições públicas desqualificadas ou empresas vilanescas. Marx nos alerta, ainda hoje, para a busca das causas dos problemas. E ainda que os achados do presente texto tenham base em obras desse autor, é também nelas que podemos constatar que as mazelas da classe trabalhadora – nela incluída os trabalhadores do turismo – vão muito além das simples relações cotidianas entre indivíduos. Esperamos que esse texto seja apenas um pequeníssimo passo em um caminho que nos leve para longe da classe de objetos e para perto dos objetivos da classe.




Referências bibliográficas


Davis, A. (2016). Mulher, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo.


Marx, K. (2017). O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo.


Marx, K. (2010). Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo.


Ministério do Turismo. (2018). Plano Nacional de Turismo 2018-2022: Mais emprego e renda para o Brasil.


Ministério do Turismo. (2021). Brasil Braços Abertos. Recuperado em http://brasilbracosabertos.turismo.gov.br/.


Palha, A. (2020). Ação política transfeminista e marxista. Recuperado de https://youtu.be/y1hOn5lMGrQ.


Ribeiro, D. (2018). Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras.


Silva, A. & Blachette, T. (2005). “Nossa Senhora da Help”: sexo, turismo e deslocamento transnacional em Copacabana. cadernos pagu (25), 249-280.



[1] O presente texto é adaptado do artigo “A objetificação dos trabalhadores do turismo”, apresentado e publicado nos Anais do evento 2º Seminário Virtual Perspectivas Críticas Sobre o Trabalho no Turismo: Rupturas e Continuidades do Trabalho no Turismo no(s) Contexto(s) da Pandemia. [2] Cabe destacar, imediatamente, que nesse ponto é necessária também uma discussão do ponto de vista ético, pois esse tipo de relação envolve possibilidades distintas de consentimento, interesse e liberdade por parte dos trabalhadores para atuar como atrativos. [3] Silva e Blanchette (2005) demonstraram, por exemplo, como o turismo sexual é mais complexo do que relações de violência, incluindo inclusive bastante protagonismo pelas trabalhadoras do sexo.

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