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A Casa Tuxi: hotelaria, saúde mental e inclusão

Renan Augusto Moraes Conceição | UNESPAR/Labor Movens/Alba Sud



Casa Tuxi é um pequeno hotel em Botafogo, Rio de Janeiro. Todos os funcionários são diagnosticados com alguma neurodiversidade. Angela Teberga e Pedro Souza, recentemente, conversaram com Fernanda Tuxi, proprietária do hotel, em uma live no canal de YouTube do Labor Movens.




Hospitalidade e Acolhimento


Uma das questões mais importantes a serem consideradas quando falamos sobre turismo e hotelaria é sobre as relações que se desenvolvem entre anfitrião e visitante, os momentos de acolhida e as regras que regem esse encontro, ou seja, a hospitalidade. Nem sempre uma relação harmoniosa, a dinâmica entre anfitrião e visitante, ou entre turista e comunidade turística, ou ainda hóspede e hoteleiro é permeada de complexidade e, muitas vezes, contradições sobre os limites e funções dessa hospitalidade. A hospitalidade então vem a ser o estabelecimento de uma relação social, uma forma de viver em conjunto, seguindo regras, rituais e leis que não são necessariamente escritas. Por ser uma relação social, a hospitalidade também acontece quando, dentro de uma mesma comunidade, os membros se sentem acolhidos e participantes, formando uma unidade coesa e um sentimento de identidade.


O que ocorre, então, quando é a comunidade que exclui e não acolhe seus próprios membros? Quando nega aos seus integrantes a hospitalidade que é tão importante como forma de sociabilidade? E quando essa exclusão é motivada por questões preconceituosas a respeito da saúde mental e outras neurodivergências? Nesse caso, o já pesado sentimento de exclusão é ainda mais forte, com consequências graves para o bem-estar dos indivíduos. No Brasil, mesmo com uma série de políticas públicas que estabelecem diretrizes para a inclusão de pessoas com deficiência e outras condições, o que abarca as condições mentais neurodivergentes, fato é que nem sempre elas atuam com foco na acolhida. Foi somente em 2015 que os direitos das pessoas com deficiência passaram a ser regidos por legislação específica, a Lei Federal n. 13.146, de 06 de julho de 2015, que instituiu a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, garantindo direito à vida, saúde, educação, moradia, trabalho, assistência social, reabilitação, lazer, turismo, entre outros. A garantia de direitos, porém, não significa acolhimento ou mesmo o tratamento humanizado e hospitaleiro.



Live Labor Movens e Fernanda Tuxi


Foi abordando situações como essa que, no dia 14 de dezembro, a professora Angela Teberga, fundadora do Labor Movens – Condições de Trabalho no Turismo, vinculado ao Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (CET/UnB) e membro da Alba Sud, realizou um bate papo com Fernanda Tuxi, proprietária do hotel Casa Tuxi, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, sobre saúde mental e inclusão na hotelaria. Participou da conversa o professor Pedro Costa, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. A transmissão pelo YouTube pode ser vista no link abaixo:



A Casa Tuxi é um hotel de pequeno porte, contendo 15 unidades habitacionais em um prédio construído no começo do século XX e que até poucos anos atrás abrigava uma oficina mecânica. Com 22 funcionários, emprega pessoas neurodivergentes e diagnosticadas com alguma patologia psiquiátrica. Esse é um dos requisitos para a contratação, inclusive: pacientes com laudo psiquiátrico, com tratamento medicamentoso e que fazem psicoterapia. Dos 22 funcionários, 10 são fixos e outros 12 atuam como freelancers. Desses 10 funcionários fixos, 6 foram contratados por já serem conhecidos de Fernanda e que fazem tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial – CAPS. Além do tratamento no CAPS, uma psicóloga atende os funcionários todas as quintas-feiras no próprio hotel, garantindo, assim, duas sessões de psicoterapia e eles. Há, entre os funcionários, pessoas autistas, bipolares, borderline, adictas. As condições de trabalho foram pensadas para respeitar todas essas condições e diversidade. Cada um com o seu comportamento, enfrentando seus próprios limites. Fernanda diz que quando um funcionário surta, todos surtam e se apoiam mutuamente. Com a dinâmica exigente do trabalho hoteleiro, na Casa Tuxi, tudo deve ser repensado e adaptado às várias dificuldades individuais.



Fonte: Instagram Casa Tuxi (@casatuxi).



Fernanda Tuxi, diagnosticada com duas formas de neurodivergência, Transtorno de Afetividade Bipolar e Transtorno de Personalidade Borderline, é paciente psiquiátrica e relatou sua história de vida, pontuada por dificuldades, abandonos, abusos e exclusões. Vivendo sozinha desde os 16 anos, após a morte do pai, Fernanda conta que precisou, desde cedo, trabalhar para sobreviver sem precisar recorrer às drogas ou prostituição. Hoje com 40 anos, Tuxi já trabalhou em uma variedade de trabalhos informais, com panfletagem, fotografia e até mesmo realizando malabarismos em frente aos carros no sinal vermelho. Na busca por empregos formais, deparava-se com preconceito e exclusão quando informava de sua condição mental e sobre seu tratamento.


Tendo sua vida pessoal atravessada por relacionamentos abusivos, dificilmente encontrava estabilidade, tanto financeira como emocional, para uma vida tranquila, o que a levou a uma tentativa de suicídio. Sabendo que havia algo diferente em toda essa história, Fernanda buscou ajuda em um hospital psiquiátrico, tendo sido internada contra sua vontade pela primeira vez. Dentro dos hospitais psiquiátricos pelos quais passou, havia muita hostilidade e violência, mas também momentos de amizade sincera e verdadeira entre os pacientes. Aqui é possível saber um pouco mais de sua história. E é com toda essa história que Fernanda contou sobre o surgimento do hotel.


Fonte: Instagram Casa Tuxi (@casatuxi).



Quando questionada sobre a razão de abrir um hotel, ela relatou que, em meio a tantas razões, uma delas foi a de conseguir seu próprio abrigo, uma vez que já chegou a morar dentro do carro. E mais, após a morte de sua avó, uma pessoa igualmente rejeitada e excluída da sociedade, o que a levou a tirar a própria vida,


Fernanda diz: “sete anos atrás a minha vó se suicidou e eu carreguei o caixão dela e falei: eu vou fazer, por pessoas que cruzarem a minha vida, tudo aquilo que não fizeram por nós. Daí, surgiu a ideia de abrir a Casa Tuxi”.

Por consequência, o hotel é um local de acolhimento a pessoas como ela, rejeitadas em outros lugares e empregos por razões preconceituosas. A casa Tuxi, afinal, tornou-se uma comunidade de apoio. E de luta contra a visão estereotipada e preconceituosa das pessoas:


“Já botei gente daqui pra fora quando começou a debochar [sobre a condição neurodivergente dos funcionários]. Já passei por situações bizarras. Mas eu não ia aceitar, eu não estou nem aí, eu expulso. Eu não vou mais admitir isso. Eu não vou engolir. A decisão é eterna, o sentimento é passageiro. A minha decisão é sobre a luta antimanicomial. Aqui não vai pisar nenhum psicofóbico, não vai debochar de nenhum funcionário, não vai fazer palhaçada”, contou Fernanda.


Hospitalidade, Casa Tuxi e Luta Antimanicomial


De fato, a luta antimanicomial, no Brasil, é necessária e muito importante. Ainda existe no país a percepção de que pessoas com algum transtorno mental ou condição neurodiversa deveriam ser confinadas, postas à margem da sociedade, escondidas. A existência de instituições de confinamento, os manicômios, só foi oficialmente encerrada com a Reforma Psiquiátrica ocorrida em 2001. Nos manicômios, os pacientes eram submetidos a torturas, maus-tratos, estigmatização, eletrochoques. Um deles se notabilizou por essas práticas, o Hospital Colônia de Barbacena, no estado de Minas gerais. Os horrores cometidos por esse hospital ficaram conhecidos como holocausto brasileiro.


Fernanda sabe muito bem a falta de acolhimento oferecida por essas instituições, tendo sentido na pele o quão hostil alguém pode ser tratado simplesmente por não corresponder ao comportamento neurotípico. Nos momentos em que Tuxi mais precisou, a acolhida lhe foi negada e as relações sociais tão importantes para a vida em comunidade lhe foram tiradas. É por isso que a existência do hotel Casa Tuxi é tão notável: oferece um ambiente digno para aqueles que são excluídos e rejeitados em quase todos os espaços. E, por um acaso, o hotel tem casa como nome. Casa, o espaço mais particular e que, do ponto de vista da hospitalidade, apresenta as maiores complexidades nas relações entre anfitrião e visitante. O espaço mais íntimo e, em tese, de maior segurança individual. A casa que evoca o lar.


Tendo tudo isso em vista, é notável o que Fernanda realiza, a nível individual. Na grandiosidade necessária das políticas públicas no Brasil, um país continental e complexo em todos os sentidos, o alcance das ações dessas políticas, por vezes, é limitado, sendo necessário garantir, primeiro, acesso a todos, para depois se pensar melhorias efetivas. Atuando nos espaços vagos da política pública, Fernanda mostra um caminho concreto de inclusão e de acolhimento, que não nega as dificuldades e os problemas, mas que tem como meta superá-los.


Quando a comunidade, por fim, se nega a acolher, a oferecer o benefício da hospitalidade, essa característica tão elogiada na população brasileira, e quando as políticas públicas não conseguem alcançar ou obter o sucesso esperado, resta aos próprios indivíduos buscarem as relações sociais a eles negadas e construir seus próprios espaços hospitaleiros. É nessa perspectiva que podemos entender Fernanda e a grandiosidade da Casa Tuxi. Sabemos que as soluções duradouras não podem depender do nível individual. No entanto, muitas vezes as mudanças necessárias podem se inspirar em casos particulares. Que a Casa Tuxi seja um bom exemplo e caminho.


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*Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, na plataforma da Alba Sud.


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