“Tem vez que a gente não consegue nem andar”: o trabalho das camareiras de hotel em São Paulo

Atualizado: Out 15

Gabriela Ferreira Camargo | Mestranda em Turismo/USP



Camareira limpando uma Unidade Habitacional (UH) no Hotel Marriott World Center. Crédito: Zachary Long



O turismo, como atividade econômica, era responsável, até a sua paralisação por conta da pandemia da COVID-19, por 8% do PIB mundial e por 1 em cada 10 empregos gerados no mundo. Porém, estes empregos gerados, muitas vezes, são precários, e quando analisamos a situação das camareiras de hotel, não é diferente.


As camareiras são essenciais às organizações hoteleiras, e seu trabalho está diretamente relacionado à imagem e ao sucesso financeiro dos hotéis. Mesmo que o hóspede, muitas vezes, não as veja trabalhando, ele sempre percebe quando as camareiras não executam seu trabalho com excelência. Esta excelência está relacionada com suas condições e bem-estar no trabalho.


As camareiras de hotel possuem escala 6×1 e uma jornada diária de 8h de trabalho, na maioria das vezes. Neste período, elas possuem uma hora de almoço e, em hotéis upscale (hotéis de luxo), limpam cerca de 20 unidades habitacionais (UHs). Destas trabalhadoras, são exigidos pontualidade, uniforme e cabelos impecáveis, atenção e eficiência. Contrapondo à estas exigências, temos a grande carga de trabalho que gera uma verdadeira corrida contra o relógio.


Em pesquisa realizada sobre a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) das camareiras de hotéis upscale em São Paulo, foram analisados os seguintes fatores: condições e características físicas do trabalho, fatores políticos, psicológicos e de integração social no trabalho, a relação trabalho-vida e o uso, e desenvolvimento de habilidades.


Como principais resultados, verificou-se que as camareiras possuem pouco ou nenhum tempo destinado a atividades de lazer. Os principais motivos são o papel de trabalho doméstico que exercem em casa. Essas trabalhadoras, em geral, executam tarefas domésticas fora de seu horário de trabalho e também nos dias de folga. A maioria das camareiras também cuida dos filhos ou netos durante o período de folga. Tal rotina faz com que elas não tenham tempo suficiente para se recuperar fisicamente para o próximo dia de trabalho.


Outro fator que interfere na rotina das camareiras e resultam, também, em sua dificuldade em fazer cursos e possuir hobbies é a rotina de trabalho incerta. Apesar das 8 horas previstas, as camareiras possuem um volume de trabalho muito grande, o que faz com que a maioria destas trabalhadoras façam horas extras constantes, fazendo com que elas nunca saibam ao certo que horas sairão do trabalho e não possam assumir compromissos em seu tempo livre.


Estes fatores fazem com que a maior parte das camareiras não tenham condições de elaborar planos ou se profissionalizarem para mudar de cargo, mesmo dentro da hotelaria, uma vez que os treinamentos são ou fora do horário de trabalho, ou durante o dia de trabalho. O que atrapalha suas rotinas laborais e resulta em mais horas extras.


Além disso, pelo fato de o trabalho ser muito pesado, intenso e extenso, as camareiras desenvolvem uma série de problemas de saúde como tendinites, problemas na coluna, nas pernas, nos braços, e até problemas respiratórios devido ao manuseio de produtos fortes e contato com ar-condicionado em diferentes temperaturas nos quartos de hotel. Tais fatores, além de provocar o sofrimento no trabalho, geram diversos atestados de saúde e afastamento das funções, além de, a longo prazo, gerarem condições crônicas de saúde. Tudo isso serve como argumento para a grande rotatividade no setor.


O sentimento de falta de perspectiva somado às dores que as camareiras sentem ao final do dia geram uma condição de baixa-autoestima que interfere também na saúde mental das camareiras.


Ao fazer a conta sobre o tempo de trabalho e a quantidade de UHs a serem limpas, percebemos mais um fator precarizante no cotidiano laboral das camareiras. Ao chegar no hotel, as camareiras fazem uma reunião em que são entregues os relatórios com a quantidade de UHs a serem limpas, depois elas precisam organizar seus carrinhos e subir para seus andares. Existe também o período de intervalo para almoço, com duração de 1h, as pausas para utilizar o sanitário e o tempo de locomoção dentro do hotel. De acordo com o cálculo chamado Room Par, restam 6,33 horas de trabalho destinado à limpeza das UHs, ou seja, 380 minutos. Se dividirmos este tempo pela quantidade média de UHs a serem limpas diariamente, temos um total de 19 minutos por quarto, o que é muito pouco para hotéis upscale.

Além disso, as camareiras precisam cobrir folgas, faltas por motivo de saúde e férias de suas colegas de trabalho, o que aumenta a sua carga laboral, fazendo com que as horas extras sejam constantes e aumentando o sentimento de impotência dentro do hotel.


Outro ponto muito triste que grande parte das camareiras entrevistadas elegeram como mais constrangedor dentro do hotel é a hostilidade dos hóspedes que algumas vezes ignoram ou as tratam mal, e, com uma frequência de se espantar, atendem as trabalhadoras dentro do quarto sem roupas adequadas, ou até, sem nenhuma roupa.


Deve ser levantada, também, a questão do convênio médico. Em alguns hotéis, os convênios não cobrem os exames e consultas padrão em sua totalidade, o que pode ser muito grave, como se nota no discurso da camareira a seguir:


Esse agora eles descontam menos, mas tinha um anterior que eu fiquei dois meses sem salário, porque era muito desconto, era muito alto, e aí eles mudaram pra esse, mas não foram grandes coisas, (…) eu fiquei sem salário no mês seguinte e depois, no mês seguinte, veio pela metade de tão alto que era (…) um foi o oculista, oftalmo no caso e o preventivo que eu fiz, fui no oculista, eu e a [ocultado] no [ocultado] e eles cobraram valores absurdos. Você sabe que vai descontar, mas você não imagina que você vai ficar sem salário, né?

Apesar disso, como pontos que consideram relevantes para seu bem-estar laboral, as camareiras destacaram a liberdade de expressão com chefe e colegas de trabalho, convênio médico, salário e benefícios e festas da empresa. Ainda, quando as entrevistadas comparam o atual emprego com o anterior, as camareiras, que geralmente vieram de outros hotéis, consideram a condição de trabalho, no emprego atual, muito superior. As camareiras também apontaram sugestões de melhoria para sua relação de trabalho, dentre elas: escala 5×2, mais folgas aos finais de semana, maior número de camareiras nos hotéis, aumento de salário e exercícios laborais e alongamentos antes do trabalho.


Finalmente, entende-se que é necessária a conscientização de gestores sobre a importância das camareiras dentro do hotel e a importância de políticas sérias e embasadas de Qualidade de Vida no Trabalho dentro das organizações, leis trabalhistas que favoreçam relações saudáveis de trabalho, melhor treinamento de gestores, principalmente na área de recursos humanos e o fortalecimento dos sindicatos para que haja uma fiscalização rigorosa das relações e condições de trabalho das camareiras de hotel.


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