O que sabemos sobre o trabalho das camareiras?

Atualizado: 25 de Nov de 2020

Ernest Cañada | Alba Sud


Este artigo apresenta os principais resultados de uma revisão bibliográfica internacional sobre as pesquisas no campo das ciências sociais e médicas relacionadas ao trabalho das camareiras. Foi publicado na revista Papers de Turisme em 2019. Foram analisados um total de cinquenta artigos, capítulos de livro e livros publicados até 2018 focados na temática. As investigações sobre o trabalho no turismo tiveram, historicamente, uma inclinação para o setor hoteleiro e, dentro deste, o grupo das camareiras – trabalhadoras que se dedicam à limpeza dos apartamentos de hotel – recebeu maior atenção, em oposição a sua invisibilidade pública. Os principais temas que se sobressaem nas análises de literatura feita são os seguintes: a) composição e concepção de seu trabalho; b) processos de segmentação; c) intensificação do trabalho; d) saúde laboral; e) assédio sexual e f) organização sindical.

Fotografia: Ana Núñez


Quem são e qual é o valor das camareiras nos hotéis

As camareiras são majoritariamente mulheres. As competências socialmente atribuídas ao gênero feminino são aproveitadas pelos empregadores para contratar, a priori, mulheres para serviços de limpeza e cuidados. Tal fato relaciona-se aos processos de segregação horizontal através dos quais se vincularam determinados empregos às mulheres em um contexto de divisão sexual do trabalho fundamentada no patriarcado. O trabalho das camareiras é marcado por estereótipos de gênero que associam às mulheres os trabalhos de limpeza também no mercado laboral. Isto gera barreiras socioculturais, ou “sticky floor”*, que fazem com que a maioria das mulheres sejam submetidas a empregos precarizados. Diante da naturalização destas desigualdades sociais, concomitantemente à elevada disponibilidade de trabalhadoras, os empreendedores conseguiram manter os custos laborais baixos e flexibilizar sua força de trabalho. Na verdade, a maioria dos empregos de camareira são caracterizados como trabalhos de baixa remuneração, onde as problemáticas relacionadas às demandas por salários justos são comuns. A composição da mão-de-obra das camareiras parece ter evoluído ao longo do tempo, com um protagonismo crescente de trabalhadoras imigrantes. Se antes a maioria das camareiras eram do próprio país, progressivamente e em paralelo à globalização econômica, os empreendimentos hoteleiros tem concentrado um número maior de trabalhadoras imigrantes de países do hemisfério sul. Historicamente o trabalho das camareiras tem sido desvalorizado, apesar da importância central que as mesmas têm para o funcionamento dos hotéis. Socialmente, foi considerado um trabalho insalubre, invisível, servil e desqualificado. No entanto, estudos baseados em entrevistas com as próprias camareiras mostram que, ainda que o considerem um trabalho árduo, exaustivo, mal remunerado, repetitivo e pesado, estas possuem uma percepção positiva de sua profissão, manifestando compromisso, além de rejeitar imagens pejorativas e estigmatizantes. Esta percepção positiva da profissão se confirma pela insatisfação em não conseguir realizar plenamente suas funções devido às condições de trabalho precárias ou pela devida consideração da importância do departamento de governança hoteleira em comparação a outros departamentos do hotel. Seguindo diretrizes similares para a maioria das economias pós-industriais, o trabalho no setor de serviços de maior precariedade, com menor atrativo e menor remuneração é aquele em que se concentram pessoas de origem imigrante. O status migratório é usado pelo empresariado de forma semelhante ao gênero, que agrega uma camada a mais nos processos de discriminação e segmentação dentre o corpo de funcionários dos hotéis. De uma perspectiva interseccional, etnia, gênero, classe, idade e status migratório se entrecruzam para organizar as oportunidades de trabalho consideradas mais apropriadas para cada mão-de-obra. Assim, a formação da equipe do hotel é feita de forma variada de acordo com as exigências específicas de cada setor, além de pré-conceitos construídos com base na naturalização de habilidades e certos estereótipos de cada nacionalidade.


Dinâmicas de segmentação

A medida que o fluxo de trabalhadoras imigrantes aumentou, especialmente de países do Hemisfério Sul, os departamentos hoteleiros tornaram-se etnicamente mais plurais e complexos. Não obstante, esta composição é multidimensional e pode envolver vários fatores além da nacionalidade, como tempo de trabalho prestado, a escolaridade ou a relação contratual. Uma das questões que se pode destacar em parte dos estudos revisados é a preocupação com os processos de segmentação do trabalho dentro do coletivo das camareiras, como consequência das políticas de flexibilização do trabalho, que passa a ser considerado unicamente como um custo variável. Em um contexto de maior flexibilização do trabalho, insegurança econômica e diferenças nas formas de contratação, a crescente segmentação poderia fomentar rivalidades e conflitos, que diminuem a solidariedade, ao mesmo tempo em que diminuem as capacidades coletivas de defesa por parte das camareiras, que parecem caracterizar um dos grupos mais afetados pelas dinâmicas de segmentação.


Intensificação do trabalho

Diversas pesquisas têm identificado que um dos problemas mais graves enfrentados pelas camareiras está relacionado à intensificação de seu trabalho, através da demanda de maiores quantidades e rendimento. Em um contexto de crescente competição no mundo, os hotéis implantaram diversas estratégias para atração, fidelização de clientes e redução de custos que intensificaram o trabalho de inúmeras formas. Apesar da intensificação do trabalho, verificou-se que as camareiras tentam cumprir com todas as funções designadas, seja por orgulho ou por medo de repreensões. Isto levou a estratégias distintas: procurar apressar o trabalho das camareiras quando estão há muito tempo no mesmo apartamento e apresentam condições de avançar ou ajudar em outro apartamento. Não obstante, os principais efeitos deste processo são a aceleração do trabalho e a diminuição dos intervalos de descanso. Uma das consequências da sobrecarga de trabalho é que muitos hotéis transferem a responsabilidade às trabalhadoras, obrigando-as a concluir as tarefas designadas mesmo após terminadas suas jornadas de trabalho. Isto se traduz em jornadas com horários imprevisíveis, além de tensões e conflitos causados pela dificuldade em se conciliar trabalho e vida pessoal.


Saúde ocupacional

Na pesquisa sobre a saúde laboral em turismo e, particularmente, no setor hoteleiro, tem-se destinado atenção especial às camareiras. Numerosos estudos evidenciaram uma incidência significativa de diversos problemas de saúde dos quais padecem estas trabalhadoras. Se tratam de problemas como: lesões por acidentes de trabalho; dores no ombro, coluna e nuca; e, de forma mais ampliada, dores generalizadas, assim como distúrbios musculoesqueléticos; enfermidades e alergias dermatológicas, respiratórias e infecções; transtornos do sono; fadiga; e alterações na alimentação; hipertensão; estresse e outros transtornos psicológicos, incluindo a depressão, podendo ocasionar índices elevados de abandono de função; maior incidência ao ato de fumar; e problemas no estado geral de saúde. Também se verifica como, com o envelhecimento, o quadro de saúde das camareiras piora. Nem todos os estudos determinam as causas de tais incidências. No entanto, a literatura científica descreve diferentes fatores de risco de carácter organizacional que podem atuar de forma correlacionada. Foi possível associar às sobrecargas de trabalho; repetição de movimentos; esforço excessivo, como empurrar carros funcionais pesados ou mover móveis; exposição e contato com produtos e utensílios de limpeza; e materiais residuais diversos que podem causar enfermidades e infecções, assim como a falta de utensílios e equipamentos de proteção, ou seu uso inadequado. Ademais, condições precárias de trabalho, especialmente entre trabalhadores informais, se comparados aos de contratos formais, dificultando a conciliação com a vida pessoal, devido à irregularidade de jornadas, por vezes muito longas, imprevisíveis e de pouco controle; péssimas condições de trabalho; baixos salários e empregos temporários, acompanhados de baixa presença sindical, que aumentariam as situações de estresse. Situações de intensificação da carga de trabalho associada a determinadas formas de contratação precária e piece work (com remuneração determinada pela quantidade de apartamento higienizado), o qual provoca a necessidade de acelerar o ritmo de trabalho e ocasiona o descuido das medidas de proteção. Situações, ainda, de abuso por parte de superiores acarretando maior estresse, condições de maior vulnerabilidade para a maioria das trabalhadoras da área, vinculadas a um status socioeconômico, uma condição migratória, barreiras idiomáticas e falta de acesso a serviços de saúde, expostas, deste modo, a situações de risco e com menor capacidade de proteção; condições de tensão pelo modo como realizam seu trabalho e que levam a uma maior dependência ao ato de fumar. Alguns destes estudos empregaram distintos modelos teóricos sobre a relação entre condições de trabalho e saúde, com ênfase nos fatores de risco psicossocial da geração de estresse no desenvolvimento de enfermidades e transtornos de saúde. O modelo “esforço-recompensa” analisa o desequilíbrio entre trabalho realizado e as recompensas obtidas, como salário, possibilidade de promoção, seguro desemprego ou reconhecimento. Por sua vez, o modelo “demanda-controle-apoio” enfatiza a interação entre as demandas de trabalho (quantidade, dificuldade, rendimento, exigências) com a capacidade de controlar o trabalho ou a capacidade de tomar decisões e o apoio, ou seja, o suporte socioemocional e instrumental disponível para a realização do trabalho.


Assédio sexual

Na literatura disponível, assédio sexual não aparece como tema primordial das pesquisas em condições de trabalho das camareiras. No entanto, o tema deve ser analisado, pois de acordo com vários estudos, é um problema que, embora importante, foi normalizado pelas relações de poder e pelo isolamento inerente do ambiente de trabalho mas que, contrariamente, vem sendo pouco estudado. Assim, há pesquisas que apontam que, longe de ser uma circunstância pontual, o trabalho no setor turístico, bem como o tipo de interação que ocorre com os clientes, acaba possibilitando um quadro no qual as situações de assédio sexual podem ter um incidência maior do que em outros ambientes de trabalho, ou pelo menos seja uma experiência comum durante a vida profissional de mulheres em empregos relacionados ao Turismo. A forma como esses tipos de estabelecimentos são concebidos facilita as interações sexualizadas entre clientes e funcionários, o que pode levar a casos de assédio sexual. Se tratam de situações altamente sexualizadas onde a busca pela satisfação das necessidades do cliente podem sugerir aos mesmos que favores sexuais estão incluídos. Recepcionistas e camareiras são particularmente propensas a receberem tais insinuações e demandas dos clientes. O baixo nível de respeito por esses profissionais, devido à natureza do seu trabalho, por serem tarefas feminizadas e, em alguns casos, por pertencerem a uma minoria étnica, ajudaria a explicar essa maior incidência. Por outro lado, o fato de trabalharem sozinhas e entrarem em espaços considerados privativos nos hotéis, os apartamentos dos clientes, pode ser visto como um risco. Isso explica por que uma série de medidas de prevenção foram tomadas nos diferentes hotéis em que o estudo foi realizado, como manter as portas dos apartamentos abertas durante o trabalho ou ter sistemas de alarme para possíveis ataques.


Organização sindical

Os processos de organização e resistência das camareiras em defesa de melhores condições de trabalho não possuem estudos organizados pelo que pudemos identificar. No entanto, é possível apresentar dois tipos diferentes de experiências que ajudam a entender o tema. Por um lado, existem pesquisas que mostram que, frente aos processos de precarização das condições de trabalho tem havido um esforço pela organização sindical, o que tem levado a um aumento de conflitos no trabalho. Em alguns casos, identifica-se que o maior sindicalismo e combatividade, inclusive das camareiras, resultaram em melhorias significativas para o quadro de funcionários do hotel como um todo. Por outro lado, existem diversos estudos que mostram a dificuldade de organização sindical nesses setores, que também se agravou com os processos de flexibilização e segmentação da mão-de-obra.


Considerações finais

A revisão bibliográfica realizada evidencia a generalização dos processos de precarização no trabalho das camareiras. Aponta também a inter-relação entre estratégias empresariais de flexibilização, principalmente por meio de formas atípicas de contratação, bem como intensificação do trabalho das camareiras e aumento da fragilidade e vulnerabilidade desse grupo.

Isso se manifesta de maneira preocupante no aumento do risco de acidentes e doenças ocupacionais. Este círculo vicioso claramente identificado no caso da Espanha se endossa na literatura internacional. Os problemas de saúde ocupacional se destacam pelo volume de estudos disponíveis, que identificam suas manifestações e boa parte das causas que os geram. Constata-se a existência de um grave problema de organização do trabalho que afeta a saúde das trabalhadoras. Há também uma crescente deterioração das condições de trabalho desse grupo, concomitante a globalização econômica e as transformações ocorridas no setor nos últimos anos, especialmente a partir da crise financeira internacional de 2008. As múltiplas pressões que os empreendimentos hoteleiros podem estar recebendo tendem a se transferir para a mão-de-obra, onde o setor de governança parece ser um dos mais afetados.


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Referência:

Cañada, E. (2019). El trabajo de las camareras de piso: un estado de la cuestión. Papers de Turisme, 62, 67-84. Recuperado de: http://www.papersdeturisme.gva.es/ojs/index.php/Papers/article/view/514



Tradução do original em espanhol para o português de Vitor Prado e Camila Martins Cardoso.

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Grupo de Estudos e Pesquisas em Condições de Trabalho no Turismo

O “Labor Movens - Condições de Trabalho no Turismo” nasceu em abril de 2020 como um Grupo de Estudos e Pesquisas, vinculado à Universidade Federal do Tocantins e coordenado pela Professora Angela Teberga.  

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