Contribuições teóricas de Sadi Dal Rosso para o estudo sobre as jornadas de trabalho no Turismo
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BIANCA BRIGUGLIO, RENAN CONCEIÇÃO, ANGELA TEBERGA | LABOR MOVENS & ALBA SUD
Artigo Original: https://www.albasud.org/blog/pt/1949/contribuicoes-teoricas-de-sadi-dal-rosso-para-o-estudo-sobre-as-jornadas-de-trabalho-no-turismo
A homenagem celebrada em maio de 2026 pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília a Sadi Dal Rosso convida a revisitar a obra de um dos principais sociólogos do trabalho do Brasil. Suas contribuições sobre a jornada de trabalho oferecem chaves imprescindíveis para analisar criticamente o emprego no turismo contemporâneo.

No mês de maio de 2026, o professor Sadi Dal Rosso recebeu uma homenagem no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília, onde lecionou de 1978 até sua aposentadoria em 2021 e onde consolidou sua carreira como sociólogo do trabalho, pesquisador e militante. A cerimônia buscou evidenciar a relevância de Dal Rosso como pensador crítico e uma voz de grande importância para compreender as transformações dos fenômenos do mundo do trabalho.
Sadi Dal Rosso é um dos mais importantes estudiosos do trabalho no Brasil, tendo se dedicado sobretudo à questão do tempo e jornada de trabalho - um elemento central na perspectiva materialista do labor. É importante notar que, além de professor, Sadi Dal Rosso também foi uma liderança sindical docente na universidade, sobretudo nos anos 1980 e 1990. Atuou, ao longo desse período, nas lutas que impulsionaram a redemocratização do país após a ditadura militar, contribuindo, também, na Assembleia Constituinte em defesa dos interesses da educação pública e, posteriormente, na resistência às políticas neoliberais que buscaram alterar o padrão de acumulação do capitalismo brasileiro. Esse histórico de atuação evidencia sua coerência, ao pesquisar o trabalho e ao lutar pelos direitos dos trabalhadores.

Três obras do autor se destacam em sua longa carreira: “A jornada de trabalho na sociedade: o castigo de Prometeu”, de 1996, em que estudou o prolongamento das jornadas, que repercute na extração do mais-valor absoluto; “Mais trabalho!: a intensificação do labor na sociedade contemporânea”, publicado em 2008, em que estudou a intensificação das jornadas, através da introdução das tecnologias, com vistas à extração do mais-valor relativo; e, por fim, “Ardil da flexibilidade: os trabalhadores e a teoria do valor”, de 2017, em que apresentou a tendência progressiva em flexibilizar as jornadas, que invadem momentos de tempo livre destinados ao descanso do trabalhador.
A obra de 1996 foi a primeira do Brasil, a partir de uma perspectiva marxista, a estudar as jornadas de trabalho, que são discutidas em profundidade no capítulo 8 do primeiro volume da obra d’O Capital de Karl Marx. Neste livro (Dal Rosso, 1996), é evidenciado que as jornadas de trabalho no modo de produção capitalista chegam a ser mais extensas que em sociedades de economia escravocrata, como no Brasil e demais países da América Latina. “En el modo de producción capitalista, el límite superior se alcanzó cuando la jornada de trabajo anual llegó al tope de 3.500-4.000 horas al año, lo que equivale a jornadas semanales de 67-77 horas y jornadas diarias que varían entre 11 y 13 horas” (1996, p. 95).
Este livro foi uma das referências fundamentais do Relatório “Trabalho em Cruzeiros: do prolongamento a intensificação das jornadas de trabalho” (Teberga, 2011), em que a autora aponta que as jornadas de trabalho da tripulação marítima podem variar entre 11 e 14 horas diárias, sem descanso semanal. Esses números, confirmados pela literatura, são muito semelhantes ao que se verificou no auge da primeira e segunda Revolução Industrial, quando não havia qualquer regulação e legislação laboral. O aumento da produtividade não é o suficiente para a redução das jornadas, ao contrário, a limitação das jornadas de trabalho tem sido, ao longo da história do capitalismo, resultado direto da luta de classes (Dal Rosso, 1996).

Já a obra "Mais trabalho!: a intensificação do labor na sociedade contemporânea" (2008) também oferece uma chave analítica importante para os estudos do turismo. Nela, Dal Rosso (2008) demonstra como a intensificação, entendida como o aumento do ritmo e do esforço exigido do trabalhador em um mesmo intervalo de tempo, tornou-se uma característica estrutural do capitalismo flexível. No setor turístico, essa intensificação se manifesta de maneira peculiar: o trabalhador não apenas executa tarefas repetitivas, mas precisa gerenciar simultaneamente demandas emocionais, prazos exíguos e a imprevisibilidade típica do atendimento ao público. Dessa forma, o trabalho no turismo obedece a uma lógica de intensificação que, ancorada com as longas jornadas de trabalho, extraem o máximo de valor de um mesmo trabalhador em detrimento de suas condições físicas e mentais. A "obrigação de sorrir" e de manter um desempenho constante sob pressão torna o trabalho em hotéis, restaurantes e transportes um laboratório privilegiado para observar os mecanismos que Dal Rosso descreve como aumento do dispêndio de energia do trabalhador por unidade de tempo. Nessa perspectiva, a obra de 2008, além de descrever dinâmicas do trabalho existentes naquele período, também antecipou a intensificação que a tecnologia viria a impor aos trabalhadores.
Finalmente, a terceira obra do professor Dal Rosso (2017) coloca em destaque a “flexibilidade” como a estratégia contemporânea mais utilizada para precarização do trabalho e retirada de direitos. A flexibilidade envolve horários flexíveis (home office, intermitente, parcial), trabalhadores flexíveis (polifuncionais) e, principalmente, regulações flexíveis (eliminação parcial ou total da legislação laboral): “Significa eliminar los derechos laborales históricamente adquiridos; significa, en definitiva, crear nuevas condiciones para la extracción de plusvalía” (Dal Rosso, 2017, p. 65). No turismo, a perspectiva crítica da flexibilidade ilumina um paradoxo central: ao mesmo tempo em que o setor é frequentemente associado à flexibilidade e à liberdade de horários, seus trabalhadores enfrentam jornadas imprevisíveis, sobrecarga em temporadas e ociosidade forçada em períodos de baixa demanda. O autor mostra que a flexibilidade do tempo de trabalho não é um benefício, mas um ardil, ou seja, um dispositivo que transfere os riscos do negócio para o corpo e a vida do trabalhador.
Para quem estuda o turismo, isso significa compreender que a sazonalidade não é um mero fenômeno conjuntural, mas uma estratégia de gestão da força de trabalho que aprofunda a precarização e fragiliza a organização coletiva.A flexibilidade nos horários, a terceirização em cadeia e a informalização generalizada — tão comuns no turismo — são os instrumentos pelos quais o capital transfere ao trabalhador os custos e as incertezas da produção. Essa transferência não é uma distorção acidental, mas uma necessidade estrutural do processo de valorização do capital: ao externalizar os riscos para a classe trabalhadora, o capital assegura que o tempo não produtivo não seja incorporado como custo fixo. A flexibilização, assim, reduz o tempo de trabalho pago enquanto mantém o trabalhador permanentemente disponível, intensificando o trabalho nos períodos de alta demanda.

Enquanto discursos empresariais e políticas públicas celebram o turismo como uma indústria crescente e geradora de empregos, a obra de Dal Rosso oferece as lentes para enxergar a qualidade desses empregos, sua duração, sua intensidade e seus efeitos sobre a vida e saúde dos trabalhadores. Aplicar seu pensamento ao turismo significa, portanto, colocar no centro da análise não o sorriso do atendente, muito menos o prazer geral da experiência turística, mas o seu avesso: a jornada real, a fadiga acumulada das equipes de trabalho e a luta cotidiana por dignidade em um setor que vive de vender prazer.
Essa fundamentação teórica é essencial para os estudos sobre o trabalho no turismo. As contribuições de Dal Rosso oferecem ferramentas analíticas capazes de desvendar a realidade por trás dos discursos. No setor turístico, onde predominam jornadas fragmentadas, sazonalidade e informalidade extrema, além de alta exigência emocional, suas pesquisas permitem ir além das análises superficiais sobre empregabilidade e índices econômicos. Seus estudos sobre flexibilidade e intensificação do trabalho ajudam a compreender a precarização estrutural e o desgaste dos trabalhadores de hotéis, bares, agências de viagem e transportes. Em um momento histórico que a classe trabalhadora parece, finalmente, avançar suas demandas por redução da carga horária e reorganização das escalas de trabalho, Sadi Dal Rosso fornece um conjunto de conceitos e de abordagens contra-hegemônicas que podem embasar e solidificar ainda mais os argumentos a favor dos trabalhadores.
Dessa forma, aplicar a sociologia crítica de Sadi Dal Rosso ao turismo significa iluminar as contradições de um setor que vende prazer, mas muitas vezes explora a força de trabalho de maneira implacável. Sua obra permanece, portanto, um referencial indispensável para quem busca entender o trabalho para além das aparências. A homenagem no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília, assim, reafirma a atualidade do pensamento de Dal Rosso, reposicionando sua obra como indispensável, principalmente em tempos de capitalismo neoliberal e do aprofundamento das lógicas de exploração do trabalho.
Referências:
Dal Rosso, S. (1996). Jornada de trabalho na sociedade: O castigo de Prometeu. São Paulo: LTR.
Dal Rosso, S. (2008). Mais trabalho!: a intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Boitempo.
Dal Rosso, S. (2017). O ardil da flexibilidade: os trabalhadores e a teoria do valor. São Paulo: Boitempo.
Este artigo é publicado no âmbito do projeto "Turisme, treball i drets humans: aprenentatges Sud-Nord per a l’educació global", executado pela Alba Sud com o apoio da Agência Catalã de Cooperação para o Desenvolvimento (convocatória 2025).



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