Contradições entre a importância do trabalho e a desvalorização do trabalhador no turismo

Atualizado: Out 15

Paulo Meliani | UDESC



Praia da Boa Viagem, Recife-PE. Crédito: Paulo Meliani.


Mais de um bilhão de turistas viajam pelo mundo todos os anos, sustentando uma economia que em escala mundial gera centenas de milhões de empregos na prestação de serviços turísticos, como os de agenciamento de viagens, transportes, hospedagem, alimentação, cultura e lazer. Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTCC, 2019), o setor foi responsável por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial de 2018, bem como pela mesma proporção dos empregos mundiais, quase 320 milhões de ocupados direta ou indiretamente na prestação de algum tipo de serviço turístico. No Brasil, o trabalho necessário para dinamizar o turismo gerou 6,8 milhões de empregos diretos e indiretos, cerca de 7,5% do total de empregos do país em 2018 (WTTC, 2019).


O trabalhador do turismo é o indivíduo que se relaciona diretamente com o turista, é a pessoa que toma todas as providências necessárias para a efetivação de uma experiência turística positiva aos visitantes. Em diferentes momentos da estada do turista, um trabalhador do turismo faz a mediação entre sua empresa e o cliente, muitas vezes se comunicando em diferentes idiomas e, via de regra por treinamento, de maneira padronizada, cordial e eficiente. Mais do que o responsável pela qualidade dos serviços prestados, o trabalhador do turismo é por vezes o próprio representante do lugar turístico, de sua cultura, e é quem, quase sempre, orienta e indica a direção das atrações turísticas (e não só) aos visitantes, muitas vezes, acompanhando-os, como é o caso dos guias de turismo.


Do ponto de vista da qualidade dos serviços, sua importância para o turismo está no fato de o trabalho ser uma das variáveis que interferem no produto turístico, na “mercadoria do turismo”. Por vezes, assim como o tempo meteorológico e as questões locais de ordem política e social, a prestação do serviço determina a reputação de um destino turístico e pode, até mesmo, afetar diretamente a própria experiência de viagem dos turistas. Como todos os serviços devem estar ao alcance dos turistas no momento e no local em que são prestados, a interação entre turistas consumidores e trabalhadores prestadores de serviços torna-se parte da mercadoria que está sendo adquirida pelo turista. Um problema que, para Urry (1996, p. 63), resulta do fato de que a prestação de tais serviços não pode ser inteiramente realizada nos bastidores, longe do olhar dos consumidores, ou seja, o turista presencia alguns aspectos da indústria que o serve.


Além disso, os turistas tendem a criar grandes expectativas em relação ao que vão receber, já que “partir em férias” é um acontecimento simbólico dotado de particular significado. De maneira geral, turistas buscam o extraordinário, de modo que poderão ser extremamente críticos em relação aos serviços prestados que pareçam solapar a qualidade esperada do extraordinário que buscam. Ou seja, a paisagem pode ser paradisíaca e a cultura interessantemente exótica, mas se os serviços prestados forem insatisfatórios, se a qualidade do serviço prestado não for a esperada, pode haver um comprometimento da experiência turística, fazendo com que o turista não retorne ao lugar, não recomende (ou mal recomende) o destino turístico ou, até mesmo, deixe-o no meio da viagem.


Apesar de reconhecido por sua importância econômica e aclamado como gerador de empregos, o turismo traz consigo a contradição entre a importância do trabalho e a desvalorização dos trabalhadores prestadores de seus serviços. Informalidade, baixos salários, grandes cargas horárias e desvalorização do trabalho feminino, caracterizam a força de trabalho ocupada no setor, no mundo todo, inclusive no Brasil.


Em 2018, segundo os dados do “Sistema de Informações sobre o Mercado de Trabalho no Setor do Turismo” (SIMT), do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), a força de trabalho ocupada no turismo nacional era constituída por cerca de 2,1 milhões de trabalhadores, pouco mais da metade destes na informalidade (51,3%), situação que é menor nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e maior no Norte e Nordeste. Considerando os dados de 2017 do SIMT/IPEA, os pouco mais de 1 milhão de empregos formais eram repartidos quase igualmente entre homens e mulheres, a maioria adultos (entre 25 e 49 anos de idade), que receberam em média no máximo 2 salários-mínimos por mês, contudo, as mulheres receberam em média ¼ a menos do que os homens porque, sobretudo, ocupam funções menos qualificadas.


O contexto político, econômico e social no qual operam atualmente as empresas turísticas é o das transformações contemporâneas no mundo do trabalho, derivadas sobretudo das desregulamentações próprias de políticas econômicas neoliberais, em escala global, como a tendência de flexibilização das relações de trabalho, que reforça a precariedade, desvaloriza o trabalho e determina a baixa qualidade dos empregos no setor. No âmbito das empresas turísticas, mecanismos cotidianos de flexibilização reforçam a precariedade e consolidam processos de desvalorização do trabalho, como medidas relativas à composição da força de trabalho, às formas de contratação, vínculo profissional e remuneração, bem como medidas que buscam maior otimização do pessoal empregado e que limitam sua capacidade de organização coletiva (Cañada, 2019).


A flexibilização pode ser entendida como a liberdade, por parte da empresa, de despedir uma parte de seus funcionários ou ainda de reduzir o horário de trabalho deles, bem como recorrer a mais horas de trabalho repetidamente e sem aviso prévio. Diz respeito ainda à faculdade, por parte da empresa, de pagar salários mais baixos do que a paridade de trabalho, de subdividir a jornada de trabalho em dias e semanas de sua conveniência, de destinar parte de sua atividade à empresas externas e, até mesmo, contratar trabalhadores temporariamente. Em contrapartida, somente em poucos lugares, onde a organização sindical conseguiu impor melhores condições de trabalho, é que o trabalho no turismo não funciona sobre os mesmos esquemas de precariedade laboral.


Políticas contrárias à tendência de flexibilização das relações de trabalho no turismo não estão nas pautas econômicas atuais, apesar da própria OMT, desde os anos 1980, reconhecer a necessidade de condições laborais adequadas, inclusive definindo alguns direitos fundamentais dos trabalhadores do setor em seu código de ética publicado em 1999 (OMT, 1999). Segundo este código, as administrações dos países membros deveriam supervisionar a garantia de direitos fundamentais dos trabalhadores do turismo, bem como deveriam evitar que empresas multinacionais abusem de sua posição dominante e não se convertam em transmissoras de modelos culturais e sociais impostos artificialmente às comunidades receptoras, inclusive esquemas flexíveis de trabalho.

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Referências:

Cañada, E. (2019). Trabajo turístico y precariedad. En E. Cañada e I. Murray. Turistificación global. Perspectivas críticas en turismo (pp. 267-287). Barcelona: Icaria Editorial.

OMT. (1999). Organização Mundial do Turismo. Código Mundial de Ética do Turismo. Santiago, Chile: Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo.

Urry, J. (1996). O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Studio Nobel: Sesc.

WTTC (2019). World Travel & Tourism Council. Travel & Tourism Economic Impact 2019. Disponível em: https://www.wttc.org/.

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