Desigualdade de gênero e trabalho no turismo rural: análise das dissertações de PPGTURs no Brasil

Priscilla Teixeira da Silva & Natália Araújo de Oliveira



O turismo é conhecido por ser um setor que reforça estereótipos de gênero e que tem em sua base uma profunda desigualdade entre homens e mulheres. No Turismo Rural, as relações trabalho/família/lazer são alteradas com a introdução da atividade e, embora haja a inserção das mulheres, é importante refletir sobre o significado disto para o trabalho feminino.


Ainda que insira as mulheres no mundo do trabalho produtivo e valorize seu trabalho, com aumento da autoestima, autonomia financeira, melhoria da qualidade de vida (Duarte & Pereira, 2018) e outros fatores importantes, o turismo rural impõe uma maior carga de trabalho. Além disso, é possível notar a reprodução da forma tradicional da divisão sexual do trabalho. Como Lunardi (2012) explica, com a implantação da atividade, há a necessidade de reorganização das tarefas domésticas e produtivas, afetando especialmente o trabalho da mulher.


Nesse sentido, a partir das cinco dissertações sobre gênero, trabalho e turismo rural defendidas em Programas de Pós-Graduação (PPGs) com área básica em turismo no Brasil (até o ano de 2020), foram verificadas as desigualdades de gênero ali apontadas, analisando-as à luz do documento Desigualdades de género en el mercado laboral turístico da Alba Sud (Calvet et al., 2021). O informe mostra 15 discriminações por gênero no mercado de trabalho do turismo: dupla presença; segmentação por gênero e raça; discriminação salarial; contratações atípicas; trabalhos informais; teto de vidro; piso pegajoso; discriminação por imposições de padrões físicos; assédio sexual; exploração sexual; desvalorização social e invisibilização; saúde laboral; insuficiente atenção nas agendas sindicais; oposição social e familiar para ascender no trabalho; negócios familiares que aumentam a carga de trabalho.


O recorte de trabalhos parte de P. T da Silva et al. (2020) que mostraram que, até julho de 2020, 1.618 dissertações e 39 teses haviam sido defendidas em treze PPGs com área básica em Turismo no Brasil. Destas, 37 dissertações discutiam gênero (2,28%). Entre os tópicos apresentados, a maioria abordava mercado de trabalho (12), como foco em: turismo rural (5), hospitalidade (2), hotelaria (2), empreendedorismo (1), eventos (1) e assédio (1).



As cinco dissertações que discutem gênero e trabalho no turismo rural são:

TÍTULO

PPG/INSTITUIÇÃO

ANO

​O agroturismo de Santa Rosa de Lima – SC: características e singularidades da hospedagem familiar

Turismo e Hotelaria (Univali)

2005

O agroturismo em Santa Rosa de Lima: transformações socioculturais na dinâmica de organização do trabalho nas famílias agricultoras

Turismo e Hotelaria (Univali)

2008

O impacto social do turismo rural no papel das mulheres campesinas

Turismo (UNB)

2013

Turismo rural comunitário e a questão de gênero: o caso das assentadas rurais de Chapadinha-DF

Turismo (UNB)

2017

​Práticas e representações de jovens rurais frente ao turismo de Três Picos - Nova Friburgo (RJ)

Turismo (UFF)

2018

Como Oliveira et al. (2021) explicam, a primeira defesa de dissertação em turismo aconteceu no ano de 2000, a primeira que analisa gênero e turismo em 2003 e a primeira sobre gênero, trabalho e turismo em 2005, estando inclusive entre das pesquisas aqui relatadas por problematizar o papel feminino nas atividades do turismo rural, questionando que, embora empreendedora, a mulher do turismo rural não teve sua condição de vida melhorada, pelo contrário, sua carga de trabalho foi aumentada a partir da tríade lar – lavoura – pousada/ quartos coloniais (Uller, 2005).


Os trabalhos apontaram as mudanças socioculturais na dinâmica da organização do trabalho nas famílias advindas da introdução da atividade e perceberam os impactos decorrentes, destacando aumento da renda (Cabral, 2017; Carvalho, 2013), autonomia (Mororó, 2018), visibilidade (Carvalho, 2013; Mororó, 2018), empoderamento feminino (Cabral, 2017) e ainda compartilhamento das decisões entre os membros da família (Carvalho, 2013). Por outro lado, destacaram que houve sobrecarga no trabalho, pois a divisão do trabalho continuou a ter um viés sexista (Slapnicka, 2008), ainda que já seja notado um maior compartilhamento nas decisões entre os membros da família (Carvalho, 2013).


Nuvem de palavras a partir dos resumos das dissertações.

Fonte: Elaborado pelas autoras



Uma análise das discriminações de gênero no trabalho a partir do documento Desigualdades de género en el mercado laboral turístico (Calvet et al., 2021) mostra que as pesquisas voltadas ao turismo rural deram ênfase a como os negócios familiares aumentam a carga de trabalho. Mesmo que as tarefas advindas da implantação do turismo sejam compartilhadas, permanece uma sobrecarga na mulher e no seu poder de resolver problemas. Elas passam a ter uma jornada de trabalho de 15 ou mais horas diárias, faltando tempo para cuidar de si própria, de sua família e para seu lazer. O fato das mulheres que trabalham no turismo rural morarem onde trabalham dificultam a separação da hora do trabalho e do não trabalho.


As dissertações mostraram que as mulheres continuam a realizar os afazeres domésticos sozinhas, aludindo à desigualdade debatida como dupla presença na literatura. Também foi notada a segmentação por gênero pelo fato dessas trabalhadoras terem o papel de recepcionar, acolher, cozinhar e cuidar na nova atividade, algo que é socialmente vinculado ao feminino. A saúde laboral também foi reportada a partir do uso de defensivos agrícolas e também da excessiva jornada de trabalho.


Em síntese, foi possível notar como o turismo rural aumenta a carga de trabalho feminina, como as mulheres seguem realizando também o trabalho doméstico e como as novas atividades, quando envolvem o cuidar, acolher e cozinhar são normalmente executadas por mulheres, que tem sua saúde afetada a partir de jornadas triplas que envolvem o lar, o trabalho no turismo e a atividade agrícola/agropecuária.




Referências


Cabral, D. S. (2017). Turismo rural comunitário e a questão de gênero : o caso das assentadas rurais de Chapadinha-DF [Universidade de Brasília]. https://repositorio.unb.br/handle/10482/23251

Calvet, N. A., Cond, C. I., Ballart, A. L., & Almela, M. S. (2021). Desigualdades de género en el mercado laboral turístico (Vol. 14). http://www.albasud.org/noticia/es/1299/desigualdades-de-genero-en-el-mercado-laboral-turistico

Carvalho, M. S. de. (2013). O impacto social do turismo rural no papel das mulheres campesinas [Universidade de Brasília]. https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/14315/1/2013_MaysaSenadeCarvalho.pdf

Duarte, D. C., & Pereira, A. D. J. (2018). O papel da mulher no turismo rural: um estudo no circuito Rajadinha de Planaltina - Distrito Federal. Revista Brasileira de Pesquisa Em Turismo, 12(3), 81–103. https://doi.org/10.7784/rbtur.v12i3.1446

http://www.each.usp.br/turismo/publicacoesdeturismo/ref.php?id=24948

Lunardi, R. (2012). Mudanças nas relações de trabalho e gênero no turismo rural [Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/61936

Mororó, V. M. de A. (2018). Práticas e representações de jovens rurais frente ao turismo em Três Picos - Nova Friburgo (RJ) [Universidade Federal Fluminense]. https://app.uff.br/riuff/handle/1/11024

Oliveira, N. A. de, Silva, P. T. da, Gabriel, K. C., & Almeida, H. de J. (2021). Gênero, trabalho e turismo: uma Revisão Integrativa da Literatura em dissertações e teses defendidas em Programas de Pós-Graduação da área do Turismo no Brasil. XVIII Seminário Anptur. https://www.anptur.org.br/anais/anais/files/18/2152.pdf

Silva, P. T. da, Oliveira, N. A. de, & Spolle, M. V. (2020). Gênero e Turismo: um estudo exploratório-descritivo nos Programas de Pós-Graduação da área do Turismo no Brasil. Anais Da XVII Seminário Da Anptur. https://www.anptur.org.br/anais/anais/files/17/1869.pdf

Slapnicka, M. Z. (2008). O agroturismo em Santa Rosa de Lima: transformações sócioculturais na dinâmica de organização do trabalho nas famílias agricultoras [Universidade do Vale do Itajaí]. http://siaiap39.univali.br:8080/xmlui/handle/repositorio/1332

Uller, C. D. (2005). O agroturismo de Santa Rosa de Lima – SC: características e singularidades da hospedagem familiar [Univali]. http://transformatoriomargaridas.org.br/sistema/wp-content/uploads/2015/02/1.-Livro-levantamento-bibliografico-genero-no-meio-rural-DPMR.pdf

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