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Da “obrigação” doméstica à exploração profissional: o ciclo invisível das mulheres na cozinha

  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 13 horas

Rodrigo Ferreira | ALBA SUD



Dentro das cozinhas, a história continua sempre a mesma, em casa são responsabilidade das mulheres, mas quando isso passa para as cozinhas profissionais homens ganham prestígio e são celebrados. Com base em pesquisas realizadas no Brasil, Espanha e França mostra-se como divisão sexual do trabalho, assédios e a invisibilidade marcam a rotina das cozinheiras.



Crédito Fotografía: Nick Souza en Pexels.
Crédito Fotografía: Nick Souza en Pexels.

No imaginário social, cozinhar é coisa de mulher. Tratado como parte do trabalho doméstico e do cuidado, é quase uma obrigação natural, o preparo da alimentação familiar e a transmissão de receitas entre gerações sempre foram ligados ao feminino. Esse cenário muda radicalmente quando a cozinha deixa o espaço doméstico e se transforma em profissão, prestígio e espetáculo, virando muitas vezes um atrativo turístico. Nas cozinhas profissionais, os homens seguem ocupando majoritariamente os cargos de autoridade, reconhecimento e poder. Assim, quando vira negócio, o trabalho culinário deixa de ser associado ao cuidado e passa a ser convertido em um modelo capitalista visando eficiência e lucro.  A experiência gastronômica vendida ao público é marcada por criatividade, autenticidade e sofisticação, mas está ainda ancorada em jornadas exaustivas, precarização e profundas desigualdades de gênero que permanecem imperceptíveis para quem consome o prato final.


Do Doméstico ao Profissional

As pesquisadoras Bianca Briguglio (2020) e Daniela Minuzzo (2023) demonstram em suas teses de doutorado que as mulheres mantiveram historicamente uma relação estreita com a alimentação no âmbito doméstico, sendo quase exclusivamente responsáveis pela reprodução cotidiana da vida através da comida. Em contrapartida, os espaços públicos da gastronomia profissional foram sendo ocupados e controlados por homens. Essa separação não foi neutra. Como argumentam, ela está associada a uma lógica histórica que vinculou mulheres ao cuidado, à emoção e à domesticidade, enquanto os homens foram associados à racionalidade, à técnica e à autoridade. O resultado é uma hierarquia simbólica em que o fazer das mulheres dentro de casa é tratado como obrigação e um afeto e aquilo que os homens fazem nas cozinhas profissionais é tratado como arte, criatividade, excelência e empreendedorismo.


Ao discutir esse processo, Minuzzo utiliza-se do pensamento do sociólogo Pierre Bourdieu, que observava como tarefas semelhantes recebem valores completamente diferentes dependendo de quem as executa. Quando realizadas por mulheres, tornam-se invisíveis; quando apropriadas por homens, convertem-se em prestígio social. No âmbito do turismo, essa lógica se reproduz com muita evidência. Restaurantes estrelados, roteiros gastronômicos e dentro da hotelaria utilizam a imagem do "chef criador" como atração central de “cozinhas autênticas", mas raramente mostram quem está por trás delas.


As duas pensadoras já apontavam para o histórico das cozinhas do ranking dos 100 Melhores Restaurantes do Mundo e das famosas Estrelas Michelin terem poucas mulheres como líderes. Fazendo um levantamento de tais prêmios em 2025, a estrutura continua a mesma das pesquisas anteriores, sendo apenas que 7% dos 100 melhores são chefiados por mulheres. Quando analisamos os restaurantes com as famosas Estrelas Michelin, os dados não mudam muito, ficam por volta de 6%, ou seja, neste caso, dos mais de 3.000 estabelecimentos premiados pelo Guia Michelin globalmente, os homens comandam cerca de 94%.


A Divisão Sexual do Trabalho dentro das Cozinhas

A desigualdade de gênero dentro das cozinhas profissionais não aparece apenas nos cargos de chefia. Ela também organiza o próprio funcionamento cotidiano das brigadas de cozinha. As pesquisas mostram que existe uma divisão sexual do trabalho claramente estabelecida entre funções consideradas “masculinas” e “femininas”. A chamada cozinha quente, ligada ao fogo, às carnes, às grelhas e ao ritmo intenso de produção, permanece associada à força física, resistência e virilidade. Consequentemente, concentra maior prestígio, melhores salários e possibilidades de ascensão profissional.


Já a cozinha fria, as saladas, os molhos frios, a confecção de massas e a confeitaria são frequentemente associadas a características entendidas como naturalmente femininas, como delicadeza, paciência e atenção aos detalhes. Embora exijam técnica e alto grau de especialização, essas áreas seguem sendo menos valorizadas dentro da hierarquia das cozinhas profissionais.


Na prática, esse passa a ser mais um dos desafios para as mulheres dentro das cozinhas, ou seja, transpor as barreiras que separam os espaços feminilizados dos masculinizados sem serem desqualificadas, hostilizadas ou questionadas.


Fonte: Miguel González em Pexels. 
Fonte: Miguel González em Pexels. 

A Dupla Jornada e a Precariedade como "Escolha"

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar a ausência de mulheres nos postos de comando das cozinhas é a “falta de disponibilidade” causada pelos cuidados familiares. Para muitas mulheres profissionais da gastronomia, isso significa enfrentar uma dupla ou até tripla jornada. Mesmo chegando de um trabalho exaustivo nas cozinhas profissionais, elas muitas vezes continuam no trabalho doméstico de cozinhar, limpar, cuidar da casa, dos filhos e da família.


Ocorre que muitas vezes enquanto chefs homens dedicam quase todo seu tempo à profissão, frequentemente sustentados por mulheres que cuidam da casa, as cozinheiras precisam conciliar longos períodos de trabalho com responsabilidades familiares. A participação masculina nas tarefas domésticas e de cuidado segue sendo exceção, não regra. Raramente se pergunta a um cozinheiro como ele concilia a profissão com os filhos ou com a organização da casa. 


Briguglio observa que muitas mulheres acabam migrando para formas de trabalho autônomo, como produção de marmitas, doces e serviços de catering, justamente pela flexibilidade. No entanto, essa aparente autonomia frequentemente significa maior vulnerabilidade, informalidade e ausência de proteção trabalhista. Neste sentido, cria-se então um duplo aprisionamento, uma explorada pelo mercado e outra com sobrecarregadas pelo trabalho doméstico não reconhecido.


Ambientes Hostis: Assédio e Masculinidade Hegemônica

Para além da sobrecarga doméstica, a naturalização da violência é um elemento estrutural que atravessa o funcionamento das cozinhas profissionais. Briguglio descreve esses ambientes como “eminentemente masculinos e masculinizantes”, fortemente influenciados por uma lógica militarizada de trabalho. Gritos, humilhações, agressividade verbal e pressão psicológica extrema são frequentemente tratados como mecanismos normais de disciplina e formação profissional. Nesse contexto, o assédio moral e sexual deixa de ser exceção e passa a integrar o cotidiano das cozinhas.


As pesquisas de Briguglio e Minuzzo revelam relatos recorrentes de comentários sobre aparência, insinuações sexuais, toques indesejados e desqualificação profissional das mulheres. Minuzzo apresenta o caso de uma cozinheira que, após ser promovida, ouviu de um colega: “Tá saindo quantas vezes por semana com o chefe?”. Sua ascensão profissional foi imediatamente sexualizada, como se competência e mérito não fossem suficientes para justificar sua promoção.


O problema se agrava porque grande parte das violências ocorre em espaços isolados das cozinhas, nos estoques, câmaras frias e áreas internas, muitas vezes longe do público, das câmeras e sem testemunhas. A subnotificação é enorme. Muitas mulheres não denunciam por medo de represálias, perda do emprego ou humilhação pública. O silêncio se torna estratégia de sobrevivência. Em muitos casos, a saída encontrada é pedir demissão e procurar outro restaurante. O agressor permanece. A estrutura permanece. Apenas a vítima se desloca. Mesmo assim, o turismo gastronômico continua vendendo a imagem de cozinhas como espaço de paixão, autenticidade e criatividade, mas escondendo por trás essas violências.


Realidades estruturais: São Paulo, Paris, Rio de Janeiro e Barcelona

Ao cruzar as pesquisas de Briguglio (Paris e São Paulo) e de Minuzzo (Rio de Janeiro e Barcelona) revela-se um padrão estrutural que se repete em diferentes países e contextos culturais. Em todas as cidades, a divisão sexual do trabalho permanece praticamente intacta, as mulheres concentradas nos setores menos valorizados das cozinhas e os homens ocupando os cargos de comando e maior reconhecimento profissional. As diferenças aparecem principalmente na forma como a violência e as condições de exploração se tornam ainda mais severas. 


Segundo Briguglio, em Paris, o assédio moral aparece profundamente institucionalizado dentro da cultura gastronômica profissional. Gritos, humilhações e violência verbal são frequentemente tratados como parte da formação dos cozinheiros e do chamado “ethos do cozinheiro forte”. Mulheres que denunciam violência costumam ser vistas como frágeis ou incapazes de suportar a pressão da profissão.


Fonte: Rohan G. em Pexels.
Fonte: Rohan G. em Pexels.

Em São Paulo, embora o assédio também seja recorrente, a autora observa maior visibilidade pública do problema, impulsionada por denúncias em redes sociais e movimentos de enfrentamento à violência no trabalho. Ainda assim, a alta rotatividade do setor faz com que muitas mulheres utilizem a troca constante de emprego como principal mecanismo de fuga.


Já Rio de Janeiro e Barcelona, segundo Minuzzo, ambas compartilham jornadas exaustivas, baixos salários, alimentação precária no ambiente de trabalho e forte desgaste físico e psicológico. 


Em Barcelona, embora a legislação trabalhista e os sindicatos ofereçam maior proteção formal, a “naturalização da violência verbal” é tão forte quanto em Paris, e o assédio sexual é menos denunciado por medo de represálias em um mercado de trabalho competitivo e com forte presença de chefs estrangeiros que reproduzem modelos hierárquicos rígidos. No caso brasileiro, no Rio de Janeiro, a pesquisadora aponta que a informalidade e a fragilidade da fiscalização trabalhista tornam a exploração ainda mais intensa, especialmente para mulheres negras e periféricas, pois a desigualdade nas cozinhas também possui raça, classe e nacionalidade.


A precarização e a violência de gênero nas cozinhas profissionais seguem um padrão global, as estratégias de enfrentamento, o grau de institucionalização do assédio e a eficácia dos canais de denúncia variam significativamente entre os países.


O turismo também precisa discutir trabalho nas cozinhas

O turismo gastronômico transformou cozinhas em atrações culturais globais. No entanto, a valorização estética da gastronomia continua escondendo as relações de trabalho que sustentam todo setor de alimentação. A alta temporada significa jornadas dobradas, mão de obra precarizada e sobrecarregada. Mulheres negras, migrantes e racializadas ocupam frequentemente os postos mais vulneráveis do setor turístico-gastronômico. São elas que enfrentam maior instabilidade, menores salários e condições mais violentas de trabalho. Enquanto chefs transformam-se em celebridades globais, milhares de trabalhadoras seguem ocultas nos bastidores.


Discutir gastronomia sem discutir trabalho significa aceitar uma narrativa incompleta. Não existe experiência culinária sofisticada desvinculada das relações de exploração que atravessam as cozinhas profissionais. Não existe turismo sustentável enquanto jornadas abusivas, violência de gênero e precarização forem tratadas como parte natural da cultura gastronômica.


O problema não será resolvido apenas com mais mulheres em cargos de chefia. A questão é estrutural. Passa pela redistribuição do trabalho doméstico, pela transformação das jornadas exaustivas, pela criação de mecanismos efetivos de denúncia e pela ruptura com modelos de gestão baseados na violência e na humilhação. Enquanto o turismo gastronômico continuar celebrando chefs-celebridade ao mesmo tempo em que apaga as mulheres que sustentam essas cozinhas, o paradoxo existente permanecerá intacto, as mulheres cozinham, mas os homens seguem recebendo os aplausos, os prêmios e as estrelas.


Referências:

Briguglio, B. (2020). Divisão sexual do trabalho em cozinhas profissionais [Tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas]. 

Minuzzo, D. (2022). Trabalho feminino nas cozinhas profissionais: barreiras, discriminações e invisibilidade [Tese de doutorado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro]. 


O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Também é publicado no âmbito do projeto "Turisme, treball i dretshumans: aprenentatges Sud-Nord per a l’educació global" executado pela Alba Sud com o apoio da Agência Catalã de Cooperação para o Desenvolvimento (convocatória 2025).

 
 
 

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