A difusão da Covid - 19 e os empregos no segmento turístico no Rio Grande do Norte

Atualizado: 15 de nov.

Joyce Lins Pontes | UFRN


No Brasil, o primeiro caso do Coronavírus foi confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020, no entanto, pesquisadores afirmam que o vírus já estava presente na sociedade antes mesmo da comemoração do Carnaval e que, com o advento das festividades a sua propagação acentuou o quantitativo de casos.


Sabe-se que o Coronavírus atingiu todos os estados brasileiros fazendo muitas vítimas e alterando a realidade de milhares de brasileiros e dos serviços oferecidos a sociedade. Uma vultuosa parcela de trabalhadores do turismo foram impactados negativamente com esse advento sofrendo as consequências do desemprego, sobretudo aqueles que estão mais próximos aos turistas, durante a sua estadia no destino.


Sobre esta perspectiva, a Fundação Getúlio Vargas (FGV, 2020) aponta que pontos turísticos estiveram dentre as primeiras medidas de suspensão de atividades, com intuito de conter o avanço da Covid-19 levando a paralisação presencial de serviços de hospedagens, alimentação, pontos turísticos, dentre outros. É válido ressaltar que as medidas restritivas começaram na segunda quinzena de março de 2020, durante esse período mantiveram-se sob ordem de funcionamento apenas as atividades consideradas essenciais, não sendo o turismo considerado.


Logo, o objetivo do estudo esteve em analisar como o setor do turismo foi impactado com o advento da pandemia global. Como supracitado, as atividades e serviços do turismo foram um dos mais acometidos pelo vírus, sendo imprescindível compreender as reações do turismo local, as políticas públicas elaboradas e os efeitos repercutidos na sociedade. Para isso foram realizadas coletas em plataformas oficiais do governo, como: Novo CAGED 2020, Ministério da Saúde e FIERN.



A difusão da Covid - 19 no território brasileiro e no Rio Grande do Norte


Ao falarmos sobre a propagação do vírus, o termo nos permite observar e analisar o caminho da pandemia para além das capitais brasileiras, o que confirma a dinâmica da cidade central como influenciadora e conectora das demais localidades. Essa conexão, pode ser compreendida pelos locais centrais que constituem a estrutura territorial e promovem a compreensão do sistema urbano, essas formam uma cristalização material para reprodução e acumulação das diferenciadas classes sociais, por meio da conexão existente entre a produção e consumo (Côrrea, 2014, p.32).


Dessa forma, se pensarmos a pandemia como um fator impactante para o ambiente urbano, se faz necessário compreender que as conexões entre as cidades levam a propagação do vírus em diferentes escalas, isso decorre das suas estruturações que hierarquizam e concentram as atividades, levando a formação de grandes centros, metrópoles e megalópoles, que apresenta uma intensa urbanização com numerosas ofertas de serviços e empregos na região, assim denominada como central.


Logo, é essencial o uso de políticas públicas diferenciadas que permitam conter e diminuir os impactos do vírus na sociedade, sobretudo as que estão dependentes totalmente, ou, parcialmente do turismo e as que se encontram em áreas mais periféricas por deterem menor acesso a ofertas de empregos. Para Guimarães (2020) a organização econômica brasileira levou uma direção, temporalidade e intensidade do vírus. A estrutura de redes se faz conectada com às dinâmicas econômicas, traduzidas como hierarquias territoriais em que a Covid-19, ao se propagar sob território, assume “feições geográficas zonais, reticulares e pontuais”.


Os municípios selecionados para análise, nesse estudo, são considerados os principais destinos turísticos do estado do Rio Grande do Norte, o relatório do Perfil do Turista do RN (2021) aponta que os destinos mais visitados pelos turistas estão localizados no litoral sul e norte do Estado, são esses: Natal com 61,6%, seguido de Tibau do Sul com 51,4% e São Miguel do Gostoso com 24%. Mesmo em contexto pandêmico em 05 de janeiro de 2021, a Fecomércio RN publica uma notícia em que, o município de Natal/RN é considerado o destino mais procurado no verão de 2021. (Ministério do Turismo, 2021).


Praia de Ponta Negra em Natal. Fonte: Quezia Oliveira/Inter TV Cabugi



Os primeiros decretos envolvem adoção de medidas, como: a suspensão da realização de eventos públicos municipais culturais, artísticos e de entretenimento, e recomendações aos bares e restaurantes de Natal, para adotarem medidas de prevenção como o espaçamento entre mesas (decreto n°11.920). Em Tibau do Sul foi suspendida as atividades de todos os restaurantes, lanchonetes, bares, barracas e similares; circulação de pessoas em praias, rios, lagoas e piscinas públicas, além da retirada das barracas de praia e realização de eventos com presença do público (Decreto n°.15). Em São Miguel do Gostoso, foram suspendidas as licenças e autorizações antes concedidas para as atividades em andamento de hotéis, resorts, pousadas, passeios coletivos de veículos 4x4 ou quadriciclos, além disso foram adotadas medidas mais rigorosas, como a proibição da entrada de novos visitantes a cidade (Decreto de n°.75).


Sobre os impactos sentidos por estes trabalhadores do turismo, a partir da realização das entrevistas, por via Google Meet, aos representantes de associações e sindicatos do turismo, pôde-se notar as repercussões sofridas durante a pandemia, nas quais podemos examinar nos seguintes trechos de suas falas:


No total foram 5 meses com as atividades suspensas, isso afetou diretamente boa parte dos profissionais do sindicato, para ajudar a contornar a situação foi elaborado campanhas para arrecadação de alimentos (cestas básicas), para os bugueiros e a associação dos guias turísticos de Natal. Esses alimentos, também chegaram nas mãos de outros trabalhadores informais como jangadeiros e pescadores locais, cadastrados no programa [...] essa ajuda veio com projetos da prefeitura de Natal. (K. Juvêncio, representante do sindicato dos bugueiros profissionais do RN, 8 de dez. 2020).

O impacto foi devastador, as reservas financeiras foram o que nos mantiveram durante a suspensão das atividades. A parada dos passeios se deu no dia 19 de março, e voltaram no final de julho, com auxílio dos programas do governo para a retomada do turismo, com cursos de biossegurança etc. O apoio entre os integrantes se deu pela arrecadação de alimentos e cestas básicas; com auxílio da prefeitura e campanhas. Para driblar a situação financeira, durante o período da pandemia alguns integrantes migraram pra outras atividades[...] um comprou um caminhão de mudança pra auxiliar nas mudanças [...] outros compraram produtos de limpeza pra vender [...] (J. Fernandes, representante da cooperativa de passeios 4x4, 15 de dez.2020)

As entrevistas foram realizadas a 5 representantes, seus relatos nos permitem compreender a dinâmica da Covid-19 e os impactos nos empregos que possuem o turismo como base. Percebe-se também que durante a suspensão das atividades, os representantes das associações, sindicados e empresários locais organizaram redes de solidariedade para arrecadação de mantimentos e cestas básicas, para os trabalhadores formais e informais, sendo essa com ajuda, ou não, das prefeituras.


Deste modo, pensar a interação do trabalho com o meio e a sua espacialização durante o período pandêmico, é analisar como esse fenômeno se manifesta espacialmente e compreender que, o trabalho permite a existência dos fluxos e conexões entre os fixos, das quais são de extrema importância para o valor a ele atribuído. Desta forma, a análise dos dados da Covid-19 associada ao dos empregos e as entrevistas aos agentes turísticos permitiram dar luz a interação dos diversos fatores que compõem a dinâmica do turismo, essa pode ser compreendida como uma atividade de competitividade global e com necessidades de trabalhos personalizados e de qualidade, para cativação do cliente. Percebeu-se que a realidade atual da força de trabalho muitas vezes é precária e mal remunerada, quando comparada as horas de serviços trabalhadas, o que reflete a necessidade de políticas públicas eficazes e amparo aos trabalhadores do setor do turismo no Rio Grande do Norte.



REFERÊNCIAS


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