“Não é uma questão de gênero”?: naturalizações e invisibilidades no trabalho docente em turismo

Dianine Censon | UFT/UFRGS


Vivemos em uma sociedade machista. Culturalmente machista, mercadologicamente machista, academicamente machista. O patriarcado como forma estruturante de agir, pensar e sentir da sociedade vem sendo questionado cada vez mais e por cada vez mais pessoas. Ainda assim, observamos diariamente práticas que exacerbam o que se entende no senso comum como ‘o papel do homem’ em detrimento, claro, do que se entende como ‘o papel da mulher’ no cotidiano social.


Duas pessoas, duas janelas, nada mais. Georgie Pauwels, CC BY 2.0


A realidade não é diferente no turismo – seja no mundo do mercado, seja no mundo acadêmico. Atentar-me-ei, neste breve texto, acerca do trabalho de turismólogos na docência. Em recente publicação, Silveira, Medaglia e Nakatani (2020) demonstram que a inserção profissional dos turismólogos deu-se, em 2018, principalmente na docência. Em pesquisas coordenadas pelos autores, o percentual de respondentes que sinalizavam atuação docente em 2012 era de 17,34%, subindo para 25,10% em 2018. Se um quarto dos nossos turismólogos acaba por orientar-se à carreira acadêmica, parece que essa atividade profissional representa uma realidade expressiva do mundo do trabalho no turismo.


Com temática relacionada, também elaborei recentemente, com Sarah Minasi, um boletim que apresenta dados de gênero no ensino superior em turismo no Brasil. Trouxemos dados de discentes em cursos de graduação e pós-graduação em turismo, docentes em Programas de Pós-Graduação na área, além de quantitativos acerca do gênero dos primeiros autores em periódicos de turismo. Nosso levantamento demonstrou que, entre 2017 e 2020, enquanto as mulheres são 69,1% dos discentes em cursos superiores em turismo, 69% dos discentes em mestrados em turismo e 66% dos discentes em doutorados em turismo, esse número cai para 46% quando tratamos de docentes em Programas de Pós-Graduação (Minasi & Censon, 2020). Ainda, para além desses dados, considero interessante acrescentar: apenas 40% dos coordenadores dos Programas de Pós-Graduação em turismo são mulheres.


O que leva a essa vertiginosa queda?


Poderia trazer aqui diversos dos argumentos que surgiram em conversas sobre a temática. Talvez o melhor que já me foi apresentado, e que me parece poder orientar esse texto, seja:


"(...) não é uma questão de gênero. Os regulamentos de credenciamento/descredenciamento de professores para a pós-graduação são iguais para homens e mulheres, e as métricas de produção também".

Convido-os a pensar sobre regulamentos, normas, critérios de avaliação, métricas de produção, políticas, práticas, etc., que são iguais a todos os gêneros. Vivemos em uma sociedade que trata homens e mulheres de forma igual?


Não precisamos entrar no avanço das conquistas de direitos pelas mulheres (ainda em lento processo, cabe dizer). Pautemo-nos pelo que Foucault (2005) chamaria de “ideal regulatório”. O corpo e a sexualidade seriam construções culturais, diretamente relacionadas ao conceito de poder. Pensemos também na ideia de micro poder (Foucault, 1979), nas práticas discursivas quase invisíveis produzidas e reproduzidas em esferas específicas e responsáveis, em diversas medidas, pela domesticação social - a partir de uma ordem de normatização das formas de agir, pensar e sentir dentro de determinados padrões. Talvez seja interessante trazer pequenos exemplos, pequenas relações, pequenas falhas no discurso de ‘igualdade’, que nos ajudem a pensar acerca das invisibilidades femininas, das naturalizações e desse poder disciplinar:


  • Questionemos: os dinheiros, sejam obtidos através do trabalho ou não, do homem e da mulher são os mesmos? Para Zelizer (1989) há uma diferenciação na orientação do uso do dinheiro em relações domésticas: enquanto o dinheiro do homem responsabiliza-se pelos gastos 'sérios', o dinheiro da mulher é direcionado aos filhos e às frivolidades domésticas. Qual o propósito de uma diferenciação da ‘importância’ do dinheiro? Como podemos pensar essa diferenciação da ‘importância’ em outros temas que denotem uma dicotomia feminina/masculina?;

  • Podemos também pensar na posição que as mulheres ocupam nos espaços de tomada de decisão no poder público. Quantas eram as candidatas mulheres nas eleições de 2018? Quantas são as mulheres presentes em partidos políticos, órgãos governamentais e sindicatos? Quantas mulheres nosso país, cuja população em 2019 era composta por 51,8% de mulheres (IBGE, 2019), já teve na presidência? Para além do abismo quantitativo nos espaços de poder e decisão, importante também salientar que, nesses, a presença da mulher muitas vezes está vinculada ao desenvolvimento de atividades relacionadas ao cuidado, trazendo a noção de atividades tipicamente "femininas". São exemplos os assuntos sociais como a educação, os direitos humanos, a família, a seguridade social, etc. (Rezende, 2016).


Tentemos traçar relações com os dois pequenos exemplos que apresentei e a realidade do trabalho da mulher no ensino superior. Uma série de estudos ao redor do mundo demonstram uma realidade análoga à questão feminina nos cargos de tomada de decisão do poder público: a presença de mulheres é maior nos cursos de graduação, o número cai vertiginosamente na pós-graduação (já vimos isso mais cedo nesse texto!) e, finalmente, entre os estudantes há uma percepção e expectativa de que as professoras mulheres devam ser mais “protetoras” e “atenciosas” que os professores homens, enquanto são vistas como “severas” quando comportam-se de forma mais próxima ao percebido/esperado dos professores homens (El-Alayli, Hansen-Brown & Ceynar, 2018).


A percepção e a expectativa das mulheres professoras relaciona-se diretamente com a ideia de estética dos sentidos de Das (2011): como deve vestir-se, comportar-se, comunicar-se, relacionar-se uma mulher? Qual “ritual social compulsório” (Das, 2011, p. 24) deve ser considerado na incorporação da identidade ‘professora’ da mulher?


A isso podemos somar uma série de outras ‘expectativas’. Abordei esse ponto brevemente no Gaia Connection de 14 de julho desse ano, ao conversar sobre machismo na pesquisa em turismo: existe um estereótipo machista da “mulher ideal”, elaborado a partir de uma construção social do que é sério, do que é confiável. Isso se reflete na forma como a mulher deve se comportar, como deve agir, o que deve ou não falar, suas expressões corporais e faciais, sua vestimenta, sua forma de sentar-se e caminhar, etc. Tenho certeza que muitos de vocês, ao lerem isso, estão formulando esse “tipo ideal” (Cf. Weber, 1979) feminino acadêmico, dando-se por conta de que fazemos isso, diariamente, sem nos questionar, naturalizando estruturas masculinas e masculinizadas que sustentam a sociedade.


E essa é a realidade também em outras áreas no mundo acadêmico. Grossi e Rea organizaram, em 2020, um livro com pesquisas de campo e pesquisas documentais das ciências sociais e humanas, das ciências biomédicas e das engenharias, abordando questões de gênero. As reflexões retratam tanto quanto venho tentando chamar atenção neste texto: o campo da ciência é um campo de "relações de poder, de hierarquias e desigualdades socialmente definidas" (Grossi e Rea, 2020, p. 2), embasados em uma estrutura de critérios e acordos para além do próprio campo.


O trabalho docente está circunscrito nessa estrutura social machista. Aqueles que ocupam posições mais altas são também aqueles que melhor interpretam a imposição de um ideal regulatório (Cf. Butler, 1993), embasado em normas, critérios de avaliação, métricas de produção, políticas, práticas, como mencionei anteriormente, iguais a todos, ainda que formulados por um pequeno e ortodoxo grupo. O resultado são micro agressões (Cf. Sue, 2010) diárias e repetitivas, em busca da lapidação das formas de agir, pensar e sentir que se encaixem melhor nas expectativas que estruturam a sociedade. Para além das qualificações e méritos acadêmicos dos que ocupam tais posições mais altas, que com certeza são muitos, questiono: estamos dando a devida atenção aos acordos sociais que possibilitam/permitem isso?


Quando voltamos a pensar no turismo, em um cenário acadêmico em que todos se conhecem, interagem e sabem quem é quem, vislumbramos os mesmos questionamentos, as mesmas expectativas, as mesmas construções, as mesmas diferenças de importância, as mesmas discrepâncias nos cargos e posições. E o que, a mim, parece mais cruel (sim, mais!), é que muitas mulheres acabam por agir, pensar e sentir nos padrões ditados pela estrutura machista, reproduzindo o modelo tido como única forma possível de ocupar e ascender a posições de destaque/poder.


Em recente aula ministrada ao Labor Movens, o Prof. Caê Silveira, líder do Grupo de Pesquisa Turismo, Educação, Emprego e Mercado - TEEM (UFPR), mencionou que os desdobramentos que levaram ao boletim ‘Mulheres na academia do Turismo no Brasil’ (Minasi & Censon, 2020), despertaram uma nova forma de olhar para os dados do Grupo de Pesquisa, levando a novas análises. Análises essas que considerassem também dicotomias relacionadas a gênero, antes quase invisíveis, presentes nos dados das pesquisas que o grupo vinha desenvolvendo.


Precisamos desses novos olhares. Precisamos dessas novas análises. Precisamos voltar aos nossos regulamentos, às nossas normas, às nossas métricas. Precisamos repensar o que naturalizamos como ‘igual’, como ‘padrão’. Precisamos, finalmente, compreender que sim: essa é uma questão de gênero.

#trabalho #turismo #mulher #gênero



Referências:

Butler, J. (1993). Bodies that matter: on the discursive limits of "sex". New York: Routledge.

Das, V. (2007). Life and words: violence and the descent into the ordinary. California: University of California Press.

El-Alayli, A., Hansen-Brown, A.A. & Ceynar, M. (2018). Dancing Backwards in High Heels: Female Professors Experience More Work Demands and Special Favor Requests, Particularly from Academically Entitled Students. Sex Roles 79, 136–150.

Foucault, M. (1979). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal.

Foucault, M. (2005). Histoire de la sexualité I: la volonté de savoir. Paris: Gallimard.

Grossi, M. P.; Rea, C. A. (2020). Teoria feminista e produção de conhecimento situado: ciências humanas, biológicas, exatas e engenharias / Miriam Pillar Grossi, Caterina Alessandra Rea (organizadoras). – 1. ed. – Florianópolis (SC): Tribo da Ilha; Salvador (BA): Devires.

IBGE. (2019). Diretoria de Pesquisas. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2012-2019.

Minasi, S. M. & Censon, D. (2020). Mulheres na academia do turismo no Brasil. [Boletim. Estudos Acadêmicos]. Curitiba, PR: OBSTUR/PR.

Rezende, D. (2016). Mulher no poder e na tomada de decisões. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA.

Silveira, C. E.; Medaglia, J.; Nakatani, M. S. M. (2020). O mercado de trabalho dos egressos de cursos superiores em turismo: comparações dos dados de 2012 - 2018. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, 14(2), 83-94. Epub August 07, 2020.

Sue, D. W. (2010). Microaggressions in everyday life: Race, gender, and sexual orientation. Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons.

Weber, M. (1979). A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. In Cohn, G. (org.) Weber, Coleção Grandes cientistas sociais, Ed. Ática, SP.

Zelizer, V. (1989). The Social Meaning of Money: "Special Monies". American Journal of Sociology, 95(2), 342-377.

Tenho tentado, também em um constante exercício de autocrítica, trazer mais mulheres como autoras das referências nos textos que escrevo. Dos 17 autores e autoras aqui referenciados, excluindo-se o IBGE, 13 são mulheres, o que representa 76% do total.

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